Que melhor altura do que esta, a do renascer, para prestar uma homenagem ao grande filme que deu origem ao título deste blog: Dr. Estranho Amor ou: como aprendi a deixar de me preocupar e a amar a bomba, de Stanley Kubrick.
terça-feira, maio 17, 2005
Porquê Estranho Amor?
Que melhor altura do que esta, a do renascer, para prestar uma homenagem ao grande filme que deu origem ao título deste blog: Dr. Estranho Amor ou: como aprendi a deixar de me preocupar e a amar a bomba, de Stanley Kubrick.
segunda-feira, maio 16, 2005
Frágil – Mudanças.
O Estranho Amor está a mudar. Esta é a sua nova cara. Vai ficar mais introspectivo, mais egoísta e mais só, se calhar. Mais apaixonado seguramente. Novas razões ou velhas promessas continuam a alimentá-lo. Os comentários acabaram mas fica o E-mail para quem quiser escrever: dr.estranhoamor@gmail.com
Bom dia.
- Não te vi.
- Eu também não reparei que aqui estavas.
- Desculpa, não vou conseguir falar contigo. Acabei de entornar todas as palavras. Quem sabe amanhã fique menos miudinho.
- Sim. Vou dormir um pouco.
- E eu vou fingir que leio o Deserto dos Tártaros.
Tudo, apenas tudo e nada mais do que tudo.
Gostava de saber a força das tuas mãos e de espreitar a minha imagem reflectida nos teus olhos. Queria saber que coisa passas de mala em mala, inútil mas que te acompanha sempre por uma razão de sorriso. Precisava de mergulhar nos teus abraços para sentir o perfume.
Queria saber como vestes o peito, como arrumas as chegadas, como deixas que te abracem, como coras com os elogios e como te comoves com uma alma mendiga.
Tudo era o que eu gostava de saber. Não me basta ver-te a ler um livro com dragões.
sexta-feira, maio 13, 2005
Até para a semana.
O tempo agarra-me a garganta e a vida. Não deixa espaço para nada. Tento, no meio das inutilidades de chumbo, arranjá-lo para me lembrar de ti e das saudades do futuro que trazes. Arranjo lugares à pressa para, por exemplo, estacionar o carro muito perto do teu. Como se isso me confortasse o desencontro dos fins de tarde. Como se esses jogos de tenra idade não fossem para nós os mais importantes.
Os dias correm depressa à nossa frente. Tão depressa que mesmo os que me deixam órfão de te ver são um boato reconfortante de amanhã ou depois.
quinta-feira, maio 12, 2005
E estas o vento levou.
Há palavras que solto como quem solta um pássaro que o visgo roubou. Como se não gostasse de as ter só para mim, desalinhadas, assim como as arrumei. Fogem assim que podem, e eu sorrio com o juízo sentado à porta.
Espalho-as ao deus-dará como se quisesse semear tempestades para colher a brisa de uma boca. Só não falo sozinho porque tenho esperança que tu as vejas. E que te abracem enquanto corres sozinha a estrada onde ontem nos queríamos ter perdido.
quarta-feira, maio 11, 2005
Please, don't mind the gap.
Os dois sentados, quase encostados. Há um braço que se esforça por não fugir. Há nervos pequenos e compromissos brincalhões. Olha-se a fingir pela janela. Há desgostos instantâneos e um mundo que podia começar e acabar logo ali. Uma espécie de vou-ali-trocar-toda-a-minha-vida-por-fichas-que-quero-gastar-contigo.
Dava tudo por um azar ou pela tua fortuna. Sem cabeça, de repente, tudo em cima da mesa. Como um transplante de alma.
Chega o fim da linha. Os dois levantados, sem saber se são estranhos ou se são apenas alguém demasiado cúmplice que discutiu o suficiente para não se falar.
terça-feira, maio 10, 2005
Tangentes.
Sei que para cada escolha que fiz havia uma melhor. Para cada casa ou cama em que me encontrei havia, com certeza, outra que seria mais minha. Apesar de tentar, nunca devo ter sido perfeito e ainda bem.
Guardo assim a eterna esperança de um beijo melhor que todos os que gastei. De um céu mais azul do que o que me viu nascer. Tão azul que se calhar nem conseguiríamos olhar para ele. Fico à espera do encontrão da vida que passa por mim todos os dias.
segunda-feira, maio 09, 2005
Keith Jarrett, o Amor e o Ódio.
Um magnífico documentário sobre o pianista e o preenchimento do modelo 3 do IRS com anexo H e G roubaram-me o tempo para falar de Amor. Posso dizer que amo o improviso do primeiro e odeio o ritmo do segundo.
quinta-feira, maio 05, 2005
Apesar disto tudo, parece que nunca direi o que sinto nos olhos de quem merece.
- Vou falar-te de Amor. Sei muito sobre isso.
- Porquê? Amaram-te assim tanto?
- Não. Sou velho.
quarta-feira, maio 04, 2005
Desalinho.
Ando a juntar coisas para dentro de mim desde muito pequeno. Arrumo-as, separo-as e colo-lhes pequenas indicações sem saber como. Falta preencher ainda muitos vazios. Recantos poeirentos e esquecidos, zonas de passagem que ainda nem varri. Prateleiras e prateleiras magras que esperam por um encontro incerto.
Pelo meio dos caixotes com coisas inúteis vejo clareiras sombrias. Sítios onde ficou o que cedo trouxeste. Vazios onde o pó ainda não assentou. Como foi possível levares tanta coisa sozinha.
Entretenho-me a arrumar devagar o que te rodeava.
Fotografia: Robert Capa
terça-feira, maio 03, 2005
Palavras de Domingo.
- Olá meu querido. És tão bonito como a tua avó diz. E tens mesmo cara de espertalhão. Olha, diz-lhe que uma das jarras da campa está partida. Ainda hoje lá estive, lavei-a e mudei as flores. Ficou encostada à pedra que tem o nome dos nossos.
Post nº 400.
Serão estas 400 histórias importantes? Estarei eu melhor ou mais leve por as ter aqui deixado? Não sei. Mas 400 é um número grande de mais para o que eu julguei ser capaz de escrever. Siga. Para a frente é que é Lisboa e a partir daqui é sempre a descer.
sexta-feira, abril 29, 2005
É amar, é amar. Quem não tem Amor não paga nada.
Gosto de procurar sonhos como se os meus não chegassem. Sou capaz de fazer uma história boa e uma má de todos os estranhos que cruzo como se eles não as tivessem já.
Passo por um divertimento de feira abandonado e paro. Há foguetões com luzes, uma por cada gargalhada de criança apanhada ao céu. Cabelos selvagens, farturas e carabinas de plástico. Poeira nos sapatos e tiros de pólvora húmida pelas lágrimas do balão largado.
Nunca vi tantos sonhos juntos. Por ali, ao Deus dará, desprezados e abandonados à sorte dos primeiros anos. Esquecidos e poucas vezes reclamados. Encontrei alguns meus. Uns voltaram comigo outros disseram que já não valia a pena.
quinta-feira, abril 28, 2005
A paixão fais mon jour:
Parece-nos um oásis, não pelo que é mas porque achamos que tudo o resto é um deserto.
quarta-feira, abril 27, 2005
Passatempo: brincar aos poemas.
Ou é a menos
Ou se tem
Ou se mata
O tempo é assim
Às vezes está bom
Outras escapa
A tua falta é assim
Oh! Se mata.
terça-feira, abril 26, 2005
sexta-feira, abril 22, 2005
Alma gémea, Fais mon jour.
Este disco dos Cocteau Twins é a banda sonora das saudades que teimas em não matar. É uma pena de Cupido que posou no jardim onde te beijei pela primeira vez. É agora a soma gigante das palavras que não têm coragem de sair. Talvez no meu sorriso tu percebas que nunca ninguém foi mais capaz de te amar. Morde-me os pulsos e a ruína, salva-me desta selva de inércia. Mostra-me o caminho do abismo.
quinta-feira, abril 21, 2005
Ainda o banho, a manhã e o corpo.
Imagino-te na água, com as mãos trocadas, nua a sorrir. Com a torrente que te salpica os lábios. Abres a boca ligeiramente para sentir na língua as gotas que têm a sorte de aí entrar. Atrasas o fecho da torneira só para sentir mais um pouco do calor que deveria ser eu a dar.
As tuas mãos. Essas que me matam de ciúme. Tocam-te, lavam-te, passam, deslizam para te desenhar o corpo. Brincam às escondidas e brincam às provocações como se fossem as minhas.
Foto: Getty Pictures
quarta-feira, abril 20, 2005
Imersão.
Nada se compara a uma manhã em que nos preparamos para amar. Destapamo-nos da noite com os sonhos a cair para junto dos chinelos que não têm tempo de fugir. Há um banho e uma música na nossa cabeça que acompanha as mãos no corpo que se quer tocado por outras. Há água que escorre mandriona, aromas e vapor que dá para escrever coisas no espelho.
Esta roupa só me serve até chegar ao pé de ti. Quanto mais bonita, mais depressa desaparece. São os teus beijos que me voltam a embaciar o coração, a tua boca que me lava e afoga. Canto contigo o que só aqui tenho coragem.
terça-feira, abril 19, 2005
Até amanhã.
Descubro no meio das letras de uma história a palavra procrastinação. Apresentei-me e o dicionário contou-me o seu significado: acto de remeter uma decisão para o dia seguinte.
Afinal já a conhecia. Não sabia o seu nome, mas lembrei-me que todos os dias nos cruzamos. Bonito nome para alguém tão intimo.
Bonito nome para alguém que se despede com o amor por acabar.
segunda-feira, abril 18, 2005
“Estou a começar a pagar. Mais vale começar cedo, para acabar depressa.”
Ruan Rulfo é um escritor mexicano cuja obra completa se resume a dois livros: “Pedro Páramo” e “A planície em chamas”. Com estes dois livros ganhou o estatuto de um dos maiores nomes da história da literatura. Também ganhou os prémios Cervantes e Príncipe das Astúrias.
É por causa de pessoas e livros destes que eu e este blog somos como somos.
quinta-feira, abril 14, 2005
Ao ocaso.
- Gosto do sol do fim dos dias de Primavera.
- Também eu. E nós? Como é que ficamos?
- Agora é tarde.
- Olha aqui que giro: é o fio que me prendia a alma ao coração. Soltou-se.
quarta-feira, abril 13, 2005
Madame Butterfly.
Fotografei esta borboleta sem reparar nas suas asas carcomidas. Só hoje, quando abri a fotografia para a colocar aqui, é que reparei no seu estado. Escondeu a sua idade, condição e, quem sabe, dor. Batia os restos de vida como se nada fosse.
Pensava que éramos só nós que conseguíamos disfarçar a vida com comportamentos condicionados. Achava que eram só as nossas asas que se iam esboroando com voos mal ou bem calculados.
Afinal não.
segunda-feira, abril 11, 2005
No meu carro.
Vimos as paisagens passar. Sentados, de vidros abertos ou olhos fechados. Uma música e uma noite que nunca vinham tarde. Perdidos ou atrasados, a rir, com o sol nos braços. Tínhamos um destino mas não sabíamos que era este.
Levei-te tantas flores onde estas se sentaram hoje. Não podias querer todas.
sexta-feira, abril 08, 2005
Amor incrível.
“Podes saber muito acerca de uma mulher pelo que traz na mala, mas de certeza que não é essa a tua intenção” – num diálogo dos “Incríveis”, filme de animação da Pixar.
As palavras e as imagens do Amor são assim: as melhores chegam-nos muitas vezes dos sítios donde menos esperamos.
quinta-feira, abril 07, 2005
É da tua falta. Só pode ser da tua falta.
Há coisas dentro de mim que descansam. Fantasmas que desistiram de olhar para a monotonia que entra. Arquivos mortos e pó assentado. Armaduras incompletas e notícias velhas a forrar caixotes.
Guardo coisas que pensei um dia virem a fazer falta. Já nem me lembrava desse mal passado.
terça-feira, abril 05, 2005
Sorte: fado; destino; dita; fortuna; ventura; quinhão; acaso; riso; género; espécie; qualidade; maneira; forma; sentimento; lote de fazendas.
Sonho muitas vezes com o passado, com pessoas que já não tenho e com palavras que só agora me chegam. Volto a beijar, a rir e a abraçar paisagens que não cabem em mim.
Só me chega o importante. Os pássaros, os comboios, as cigarras e o choro dos bebés não aparecem. O cheiro a terra e o frio dos finais de tarde não passam.
Ainda assim vale a pena. Viver mais do que foi virtuoso. Falar com quem amei com muitas verdades. Abrir portas e janelas, arejar as mantas que nos amaram e chorar com as anedotas que me fazem os dias reais.
Não sei o que tenho de maior: o que guardo ou o que aguardo.
segunda-feira, abril 04, 2005
A partir de hoje, uma série: Fais mon jour*
A versão poética: “Haja o que houver, há de sempre haver um homem para uma mulher.”
A versão da minha avó: “Não existem panelas sem tampa.”
*Tradução selvagem do inglês “Make my day”. Gosto da expressão mas prefiro a língua francesa, aliás, eu prefiro a França à Inglaterra. Para além de serem latinos, os franceses têm mais bom gosto.
sexta-feira, abril 01, 2005
Provas de contacto.
- Se a tua casa começasse a arder, o que salvavas primeiro?
- As caixas de fotografias. É lá que estou. Mais do que aqui, tantas vezes.
- É lá que eu quero ficar também.
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