Pareço um Cristo - acho que podias pôr-me ao peito. Para balançar perto do teu coração ou sossegar na tua pele adocicada pela tarde.
É curiosa esta dualidade, ora coração ora mamas. O que muda não está em ti, está na minha cabeça e nas circunstâncias do que me apetece, ou preciso.
E as velhas que põem fotos sépia do marido nos fios? Achas que é para estarem perto do tal órgão ou do delírio?
quarta-feira, fevereiro 17, 2010
Buro Destruct.
Pedem-te uma certidão de nascimento, como se a tua presença fosse uma miragem ou um contacto com o sobrenatural.
Compreendo.
segunda-feira, janeiro 25, 2010
Até amanhã.
Podia haver um fado que tinha a mãe no hospital (mãezinha se fosse dos bons).
E se fosse o meu - que eu sei disso - e por isso posso escrever?
Ter a mãe no hospital não é como nas histórias da especialidade. Há lá uma calma e uma sapiência no ar que me escapam. Há coisas fortes que não se vêm - umas vezes porque não se mexem, outras porque andam escondidas dentro de cada um.
Disseram-me que ia ficar assim a dormir até amanhã e que a máquina – essa sim parecida com as da televisão – era só para vigilância.
Amanhã é que é. O tempo que passei deu para imaginar uma cor mais longe da terra para as paredes.
Não quero a simpatia das enfermeiras nem as toalhas lavadas com afinco. Quero as coisas do costume.
quarta-feira, dezembro 30, 2009
Uma frase:
Embora fingir que estamos a fazer amor.
segunda-feira, novembro 23, 2009
Excesso de virtude.
Estou à espera que o tempo passe e não há meio. Às vezes é a correr, outras é o diabo. O teu corpo é admirável sobre tantas vistas que só com o tempo ficarei descansado. Bem sei que o que vejo e sinto é só meu, mas nunca fiando.
Espero que a idade te roube a perfeição para não haver confusões. Antigamente era mais depressa, com o Sol e o vento a gastar a pele. Agora são os ares condicionados, os cremes e as cadeiras caras que atordoam esse consumo. A canseira que será até seres só para os meus olhos.
segunda-feira, outubro 12, 2009
Is this real life?
quarta-feira, setembro 23, 2009
Este blogue não é lá muito poliamor (o que não tem mal nenhum). E, caso fosse, usava o crachá.
Percebe-se que este post foi escrito numa altura em que não há grande encanto à porta, certo?
Mas lá que é um belíssimo post, lá isso é.
terça-feira, setembro 01, 2009
Logo, durmo mais descansado.
Eu podia ser uma história má daquelas que se têm que repetir a toda a gente que aparece. Como um desastre em que toda a família quer saber pormenores.
Só que há um filho que se ri demasiadas vezes para ser infeliz. Sou capaz de me aguentar anos a fio para lhe encher os olhos de boas recordações. Para isso e para lhe dizer o que vale a pena, ou não, guardar lá de casa.
Logo, a minha vida tem que seguir com o aprumo de uma tesoura de alfaiate.
E, se de repente, começasse a dar valor às pequenas incongruências domésticas como na infância?
Porque é que o meu pai punha a carteira em cima do guarda-vestidos? Para que serve um esfregão arrumado por detrás do cano do bidé? E a gaveta das canetas e das agendas – aposto que estão lá porta-chaves de plástico, relógios sem pilha e moedas que já não valem o que valiam. Se quiser, posso limpá-las com vinagre que ficam novas outra vez.
Afinal a minha mãe continua a fazer bainhas como ninguém e o Sol no quintal continua a pôr-se a jeito para jogar à bola. Só que agora sou eu que fico no lado do pai, com um portão, pouco mais pequeno que uma baliza a sério, para defender.
segunda-feira, abril 20, 2009
Gente que gosta de mim - tenho e sempre tive.
Diz adeus com as duas mãos como as crianças. A testa morna com o Sol da manhã e o seu perfume leve como a espuma do banho que não ardeu em lado nenhum.
E o brilho dessa luz que vinha nos olhos e nas tais mãos que eram duas mas eram poucas para o tamanho das saudades que já adivinhavas.
Um adeus com duas mãos – nunca terei nenhum como o teu.
Gente que gosta de mim – vou aproveitar enquanto ninguém percebe que não sou tão bom assim de merecer.
quinta-feira, abril 02, 2009
O velhote que rosnava.
Trailer de Gran Torino de Clint Eastwood.
É sempre bom recordar.
quarta-feira, abril 01, 2009
Álvaro - o que a todos está atento.
Faltam-me oito anos para a idade que o meu pai tinha quando morreu. Cada dia está mais perto desse casamento entre a minha idade e a estranheza que será recordá-lo com os meus anos ou mais novo.
Até agora pensei que a sua perda me tinha dado arcaboiço para enfrentar o tempo e as vicissitudes inerentes. Ri-me de quem se queixava de problemas, e da maior parte destes.
Vacinado.
Mas o tempo, sempre esse, tem-me mostrado alguns efeitos secundários. Ficar frio ou impávido começa a ser parecido. As lágrimas cavam os regos que dantes só apareciam quando sorria (acho até que as rugas servem para lhes facilitar o caminho da queda).
Vi um filme em que um velhote rosnava porque o mundo se juntava para o enervar. Tenho medo de ficar como ele, na pele e no desprezo. Eu pensava que sabia muito da vida e da morte, e aquele personagem também.
terça-feira, março 17, 2009
How does it feel?
Bob Dylan em 1966, numa interpretação daquela que é considerada por muitos como a melhor canção escrita até hoje Like a Rolling Stone.
Não é bonito nem canta bem, mas o que tinha dentro fez estes 8 minutos imortais.
segunda-feira, março 16, 2009
Emblemático.
O meu pai morreu há muitos anos. Entre as recordações que guardo está uma frase, que na altura não valorizava, mas que todos os dias vai crescendo de significado.
Quando morrer vou deitado.
No dia da fatalidade, a minha mãe desvendou-a: Pronto. Agora os problemas do mundo já não o aborrecem mais.
E foi isto, e é isto que também me vai fazendo sorrir.
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
A arte da fuga.
Admiral Graff Spee
Existem dois tipos de pessoas, as que seguem os ensinamentos do livro de Sun Tzu - A Arte da Guerra, e as que, como eu, seguem a arte da fuga (em letras minúsculas como a aparente falta de dignidade do título).
Os do livro dos valentes sabem ao que vão, de peito igual aos dos heróis dos filmes. Os dos meus nunca sabem como acaba o que os envolve. Não gosto de gostar de fugir. Preferia encarar a ignorância e o insulto com a leveza sobrevalorizada da coragem. Ao invés, lá vou com a minha mania e com todos os torpedos por desembrulhar. Mais valia cilindrar com a verdade quem me aparecesse pela frente. Disparar e afundar sem piedade os argumentozinhos de algibeira como alguns couraçados alemães.
A arte da fuga, tenho uma posição general nesta disciplina.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Numa conversa com um tio muito doente:
- Então tio, como é?
- Olha é como de costume, para a frente é que é o caminho.
Registo.
Alguém, em casa a tocar Bodies dos Smashing Pumpkins.
Amadores ou Amadoras, bem-vindos aos dias de primavera.
Cast the pearls aside of a simple life of need Come into my life forever The crumbled cities stand as known Of the sights that you have been shown Of the hurt you call your own
Love is suicide
The empty bodies stand at rest Casualties of their own flesh Afflicted by their dispossession But nobody's ever knew No bodies Nobody's felt like you No bodies
Love is suicide
Now we drive the night to the ironies of peace You can't help deny forever The tragedies reside in you The secret sights hide in you The lonely nights divide you in two All my blisters now revealed In the darkness of my dreams In the spaces in between us But nobody's ever knew No bodies Nobody's felt like you No bodies
Love is suicide
terça-feira, novembro 18, 2008
Uma música para a memória e para o futuro.
Blue Dress - Depeche Mode (o video é de contrabando).
Depois da fase mais violenta da minha vida, alguma bonança se avizinha. Em vez de violenta pode ler-se dramática (no sentido que os ingleses também lhe dão - fortíssima, poderosa, intensa).
Talvez este blogue volte um destes dias.
terça-feira, outubro 28, 2008
Mãe, consigo sentir a terra a cair-me na cabeça.
I know it’s over dos The Smiths por Jeff Buckley, ou aquilo a que se pode chamar Génios encavalitados.
This is the end, my friend. My only friend, the end.
Actor e personagem com a consciência mínima para uma violência máxima. Não consigo acompanhar muitas coisas, este blogue é uma delas.
quarta-feira, setembro 03, 2008
Quem me dera estar aqui.
Só Deus, se existisse, é claro, saberia o que estou a sentir neste momento. Falar com ele sobre essa sapiência seria uma coisa de amigos. Até que ponto daria desconto à minha coscuvilhice? Sim, porque eu assim que desconfiasse que ali havia assunto do forte, não me ia calar tão cedo – já me conheço (mas não o suficiente para saber o que trespassa estes pulsos cada vez mais fracos).
Não exagero, como não exageram os bêbedos que se seguram a sinais de proibido para se manterem de pé. Nem os drogados, naquela madorna fabulosa que lhes rouba o centro de gravidade, exageram. No fundo são coisas de desgraçados, há que perceber. Também esperam por Ele para ver se arranjam amanho ou as tais explicações.
Só que estes não lambem a lembrança dos teus dedos. Nem cheiram o fim dos dias nos teus cabelos.
A vantagem deles é que o que o efeito da sua droga tem um fim. E eles acham que isso é uma coisa má.
Até dá vontade de rir.
Fotografia: Thierry Le Gouès
segunda-feira, setembro 01, 2008
Banda Sonora das férias.
Isto porque eu sou um homem, diria, sui generis, ou simplesmente com problemas (pelo menos o vídeo é um dos melhores que já vi).
Street Spirit (Fade Out)
Rows of houses, all bearing down on me I can feel their blue hands touching me All these things into position All these things we'll one day swallow whole And fade out again and fade out
This machine will, will not communicate These thoughts and the strain I am under Be a world child, form a circle Before we all go under And fade out again and fade out again
Cracked eggs, dead birds Scream as they fight for life I can feel death, can see its beady eyes All these things into position All these things we'll one day swallow whole And fade out again and fade out again
Immerse your soul in love IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE
Radiohead
domingo, agosto 24, 2008
De Férias.
Vou ler, esperar pela água morna e sorrir com vida em Standby.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Balança injusta.
Estou aqui a pensar nisso de estares a emagrecer e acho que não me agrada. É que gosto tanto de ti que fico a pensar que esses nove quilos que perdeste são, afinal, uma considerável parte de ti que desapareceu.
E eu que não faço ideia para onde terá ido isso que eras tu. Nove quilos ainda é muito e não estavas feio. Percebesses de mulheres apaixonadas e não acharias esta conversa uma palermice.
Mais valia ires-te dando a mim nem que fosse aos poucos, podiam ser essas migalhas que se vão evaporando todos os dias.
Fotografia: Eric Traore
terça-feira, agosto 05, 2008
Time, that little tricky moterfucker.
Nas guerras de hoje, imagino a mãe de um soldado à espera de uma mensagem no telemóvel que lhe diga que o filho está vivo e que a operação de hoje de manhã correu bem.
Dantes uma destas mães descansava mais, afinal de contas uma carta era coisa que levava o seu tempo mas, muitas vezes, o seu filho.
segunda-feira, julho 28, 2008
Simplesmente Maravilhosa.
Esta expressão poderia ser aplicada a ti como um fato de costureiro insuspeito. Contudo, como se as desgraças que sou não bastassem, usaste-a para outro fim, ou princípio - já nem sei.
Deverias ter tido mais cuidado, quem sabe até ter mentido, à pergunta da tua amiga “Então ontem como foi? Não é todos os dias que se tem uma primeira noite com alguém por quem se está apaixonada”.
Não que tenhas feito mal ao dizer o que sentiste, só que este elogio é tão grande que me deixa a vida à sombra.
segunda-feira, julho 21, 2008
Música nova.
Love is Noise – The Verve, 11 anos depois, o novo álbum está para sair. O tema do primeiro single é o mesmo daqui, pois então.