Cicatrizes - segunda parte.

Passadas algumas semanas, quando as suas mãos já voltavam às de gente, a sua cabeça não largava a cara do homem que lhe queimara muito mais que a dignidade. Era como se aquele pensamento estivesse encurralado dentro dele, já quase em pânico, o pensamento, a tentar esconder-se ou falar de mansinho.
O regedor já era seu conhecido e o que acabara de acontecer podia muito bem ser obra daquele desgraçado. O homem vinha a cavalo, de repente apagou-se tudo: alguém lhe enfiara uma saca pela cabeça abaixo e chapara com ele no chão. No meio daquele sufoco de presa, começou a levar porrada. Lembra-se que, antes de desmaiar, ouvia o respirar já ofegante de quem lhe estava a enfardar tanto que julgou serem aqueles os seus derradeiros suspiros e dentes. Demorou meses a recuperar.
O irmão das laranjas nunca mais foi visto por ali. O tal regedor bem o procurou mas nada. Nem o resto da família, com a fome do costume, sabia para onde tinha ido.
Anos mais tarde, e desculpem-me a falta de cuidado com a manutenção do suspense, descobriram-no em Lisboa. No Campo Grande, tratava de uns cavalos e por ali fez família, matando, com o tempo, a fome e o passado.
Fotografia - Getty Images














