quarta-feira, março 12, 2008

Cicatrizes.



Eram quatro irmãos e duas irmãs habituados com a fome. Naqueles anos a vida não era fácil e, em adultos, todos se lembravam do primeiro par de sapatos que provaram, tal foi o atraso com que lhes chegou.

Além da fome e do apelido com princípios de fama por más razões, pode dizer-se que os rapazes não eram flor que se cheirasse, no que ao trato diz respeito. Chegaram a roubar, mas sempre para comer. Entre favas e laranjas, qualquer coisa servia. Quando iam às favas, avisavam a mãe para pôr uma panela de água ao lume para as cozer assim que chegassem. A verdade é que muitas vezes, depois de descascadas, mal chegavam para todos, adiante.

Um dia o mais novo foi apanhar laranjas à quinta dos Palhas. À boquinha da noite, passou com cuidado no arame farpado do costume, só que desta vez estavam dois homens à sua espera.

Amarraram-no a uma árvore depois de lhe assentarem umas chapadas com muita força. Além de magríssimo, os dois juntos nem o deixaram falar antes do primeiro estalo. Seguiram-se insultos e alguns avisos para não voltar ali. O mais bera acendeu um cigarro e, apesar do outro lhe dizer que deixasse estar, queimou-lhe as pontas de todos os dedos.

Seguiram-se mais caneladas, gritos de piedade (que por acaso era o nome de umas das irmãs) e queimadelas nas mãos.

Quando o soltaram, levantou-se muito à pressa como uma marioneta ainda com cordas, virou-se para o do cigarro e, aos gritos e a chorar, disse que só ia ali porque precisava de comer, que as laranjas nem eram deles os dois e que ao dono não faria diferença que as levasse.

(Continua).

sexta-feira, março 07, 2008

Evidências.

- Quem é que sabe o que é melhor para ti?

- Tu.
Verdes anos.



de Carlos Paredes pelo Quinteto Belle Chase.

terça-feira, março 04, 2008

Cúmulos.



Não é a velhice, mas o cansaço que se aproxima. A secura e a poeira maceram-te devagarinho. Quando é que paras? Quando o fizeres é porque estás preparada ou dormente. Agora davas o que daria alguém condenado a uma cadeira de rodas, mas, como esse, sabes que isso não vale.

Procura erva alta e deita-te. Olha para as nuvens e repara, como dantes, nas figuras que elas fazem. Hás-de ver o que juntaste até hoje – nada que se aguente de pé.

Fotografia: Thierry Le Goués

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Dá-me um Sol.



Se não fosse o que sou, afinava pianos. Para que pudessem chorar quando alguém lhes tocasse como tu me fizeste. Com papéis ou de ouvido, com mãos para cá e para lá, num vai e vem que até poderia parecer uma coisa qualquer de sexo, que não envergonhava ninguém.

Perdia o tempo que fosse preciso para que a força e a alma dos virtuosos lhes arrancasse bem a tal lamúria.

E o seu brilho lembraria o tempo que estavas de volta das unhas, a arranjá-las nem sei para quê, acabamentos sempre foi coisa que não precisaste.

Fotografia: Thierry Le Gouès

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Bom descanso. A semana que vem terá mais tempo que esta, pelo menos aqui para o Estranho Amor.



Bachelorette - bjork

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Durante horas.



Qualquer recreio de creche tem mais felicidade do que a que me sobra. Era capaz de estar a olhar para um como um velho para uma máquina a abrir fundações.

Com a paz com que se contempla uma lareira ou um recém-nascido a dormir.

Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Coisas de homens.





No fim, o cobarde estava sentado à porta com um canivete e um pauzinho que ia descascando para se entreter.

Os dois tiros acertaram-lhe no peito. Com uma cara de espanto, e sem conseguir fazer doutra maneira, caiu, com a testa perto das botas empoeiradas de quem acabara de fazer justiça. Duas golfadas de sangue e de joelhos ficou.

Antes de sair, a mulher dissera-lhe para matar toda a gente menos as crianças. Ficou quase espantado por ela não ter desatado aos gritos e a pôr-se à frente com cantilenas de quem prevê desgraças. Se ela deixou, os do tribunal também haviam de perceber.

Agora a coisa estava feita. Não sabia se havia de esperar pela polícia ali ou em casa.

Fotografia: Thierry Le Gouès

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Bom fim-de-semana.



Let's Spend The Night Together - Rolling Stones em 1967

quinta-feira, janeiro 31, 2008

By appointment to her majesty, the Passion.



Esta coisa é tão forte como o gume de uma espada. Há posições em que não se vê, mas é afiada e mortal. Tão frágil, de um aço mole para que se amole na perfeição.

Experimentá-la só em naturezas mortas e em ocasiões especiais. Não se brinca com tal definição de final. Os cavaleiros nunca viram nada parecido de certeza. Nem os olhos das princesas que salvaram luziram assim.

Fotografia: Thierry Le Gouès

quarta-feira, janeiro 23, 2008


Tenho um coração novo.



Morning Sun – Edward Hopper

Vou limpar-lhe os salpicos de tinta, precisa de arejar por causa do cheiro. Sei que isto é coisa de se fazer com o tempo mais quente e com os dias maiores, mas a humidade não me assusta. Está com mais luz e até parece maior.

É incrível a quantidade de coisas que tinha aqui guardadas.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Uma viagem.



My Moon, My Men – Feist

O resto do albúm - The Reminder - tem o mesmo nível desta música e deste vídeo. Dos melhores de 2007.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Diferencial.



Havia de ligar-te porque desde que nos despedimos que estou a esforçar-me para não o fazer.

É assim fatal esta coisa, como o que me põe a pele com aquele ácido do fim do dia. Entranha-se como se tivesse unhas de mecânico, daquelas que não servem para te tocar.

Fotografia: Thierry Le Goués

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Eu vi a luz.



- Li num livro que os doentes em coma, de qualquer idade, adoptam automaticamente a posição fetal e que só mudam se os enfermeiros forçarem outra postura.

- É terrível.

- O quê? O coma?

- Não. Pensar que alguém se intromete quando nos preparamos para nascer outra vez. Como quando te conheci. Agora, se abalasses, voltava logo para a barriga da minha mãe, apagado.

- Quando te conheci estavas de pé.

- Pois, foi alguma enfermeira que me preparou para te receber.

- Por isso tinhas a barba mal feita. Barbear alguém que está deitado é arriscado.

- É. Mas não se compara com o perigo de te perder.

Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, janeiro 08, 2008

Está lá?

Numa busca no telemóvel passo pelo nome de um amigo que morreu há dois anos.

Só agora reparei que ainda mantenho o seu contacto. Foi uma sensação estranhíssima (e eu costumo ter cuidado nos adjectivos, ainda por cima neste grau).

Parei sem saber se havia de apagar aquela linha agora privada de qualquer sentido. Depois decidi manter, sem explicação.

Qualquer dia ligo-lhe para ver o que dá. Só não foi hoje porque para estranha bastou a descoberta. E não me apetecia nada ouvir uma máquina dizer que ela, ele, eu ou quem quer que fosse, não estava disponível.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Lambazes.



Jane Russell

Há um homem que aperta a cabeça de um outro enquanto o esmurra sem lhe conseguir ver a face ou o lábio cansado. Tem um garfo de virar frangos espetado nas costas mas é como se não fosse nada. Um dos seus filhos está no chão e tenta dar caneladas no velho que o calca com a mesa de matraquilhos.

Os cães estão a ladrar, os miúdos a berrar e as mulheres a dar-lhes abana-moscas para os calar. Um dos que começou está sentado lá fora com um lenço ensopado e prepara-se para fugir assim que ouvir a polícia.

A rapariga devia ter ficado calada ou em casa. Vir para aqui não podia dar bom resultado uma vez que era família de alguém. Agora chora - a desgraçada, ainda há bocadinho estava a rir e a provocar.

O chão mistura a serradura e os cacos, cheira a aguardente e a panos de taberna.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

As festas.

Este ano está a acabar e não deixa saudades. O sete dos dois mil desiludiu-me. E logo o sete, até agora número da sorte, como se fosse um gato com mais de uma vida.

Venha o novo ano e que não me deixe a vida num oito. Sem celebrações que isto das passagens nunca é bom. A ser uma festa, que seja de pijama.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Intimíssimo.

Lisboa, tango, Mónica Bellucci, acção.

Obrigado amigo.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Não é o ar que te mantém, é o céu.

Uma mãe perdeu um filho há alguns anos, o mais querido, e mata saudades da seguinte forma: fecha os olhos, sorri, depois abre o armário e mergulha a cara nos fatos e camisas, arrumadinhos como se ainda esperassem o uso de antigamente. O cheiro do filho nunca desapareceu. Conta às amigas que esta é a única forma de vida que lhe resta.

Eu quero falar-te com a mesma vontade que ela tem.

sábado, dezembro 15, 2007

A versão curta:



Cliquar para ampliar

Um rapaz vai no metro e vê a rapariga dos seus sonhos. Deixa-a escapar numa estação qualquer e só depois percebe que não queria, (e sabe-se lá se poderia), viver sem ela.

Começou a fazer barulho e descobriu-a. Foram blogues, jornais, televisão, revistas até ela aparecer.

Hoje estão juntos.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Esta música.



Love will tear us apart – Joy Division

É o antes e um depois, um Jesus Cristo na minha vida, a revolução total. É a expressão máxima do nada mais será como dantes, um acidente pai de cicatrizes indeléveis.

É mesmo a minha vida, sempre foi desde que me lembro, o seu começo e a sua continuação.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Orgulho.



Este filme está na final do concurso de comunicação Eurobest, a decorrer em Londres. Foi criado por um amigo meu aqui da agência e produzido em Inglaterra.

terça-feira, novembro 27, 2007

72,8%

da pessoa que amas é água.

terça-feira, novembro 06, 2007

Um poeta disse que os marinheiros costumavam ser paneleiros.



Não lhe perdoo porque um desses foi meu pai. Esse poeta incapaz deveria saber que nada se compara à sensação de parar um barco onde só se vê céu e mar, e mergulhar num abismo de saudades e insignificância aterradora.

Que deseje ardentemente estar cercado de água, homens, nuvens e um ruído compassado de gasóleo é uma coisa. Enfrentar a morte no vento do Canal da Mancha é outra, que nunca sentiu.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Trabalhador e educado.



The Mountain - P.J. Harvey

Um homem de 82 anos quer casar a filha de 58 cujo primeiro homem se foi embora há anos. Ela tem um filho que já não atrapalha e que só de vez em quando aparece e pergunta se não é canja aquela panela. Ela está coxa e apesar de precisar de ajuda para ir à rua, é coisa que passa com o tempo.

Já falaram os dois sobre a roupa e a vaga. Não podem ser esquisitos.

A vizinhança já percebeu que raio ali vai. Elas fazem figas pela dor, eles pela perna.

Era soberba quando era nova e isso ainda conta muito para quem a conheceu e sonhou toda a vida com uma oportunidade parecida.

terça-feira, outubro 09, 2007

Um doce, de uma das minhas cidades preferidas de sempre - Tomar, com um nome urgente como os beijos verdadeiros.



Tenho o doce e a embalagem para te apanhar. E este depressa engraçado, mais parece uma urgência que me abre a boca e deixa sentir o vento a rir, esta malvada que carcome a paciência.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Tenho o peito desafinado.


Viena sempre me fascinou. Esta música fala de uma valsa com o seu hálito tão próprio, a brandy e morte, que vai pousando a cauda no mar.

Esta música é estímulo cru que me rouba ou empanturra a alma. Ouço-a repetidamente até quase adormecer. É uma figura triste com um chinelo levezinho de carneira e uma bota cardada ao mesmo tempo.

Diz tanta coisa que eu nunca serei capaz de imitar. Sentir talvez, mas dizer, nem pensar.


Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost



Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz with the clamp on its jaws



Oh I want you, I want you, I want you
On a chair with a dead magazine
In the cave at the tip of the lily
In some hallways where love's never been
On a bed where the moon has been sweating
In a cry filled with footsteps and sand



Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take its broken waist in your hand



This waltz, this waltz, this waltz, this waltz


With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea
There's a concert hall in Vienna
Where your mouth had a thousand reviews
There's a bar where the boys have stopped talking
They've been sentenced to death by the blues
Ah, but who is it climbs to your picture
With a garland of freshly cut tears?



Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz it's been dying for years



There's an attic where children are playing
Where I've got to lie down with you soon
In a dream of Hungarian lanterns
In the mist of some sweet afternoon
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lilies of snow



Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
With its "I'll never forget you, you know!"



This waltz, this waltz, this waltz, this waltz ...



And I'll dance with you in Vienna
I'll be wearing a river's disguise
The hyacinth wild on my shoulder,
My mouth on the dew of your thighs
And I'll bury my soul in a scrapbook,
With the photographs there, and the moss
And I'll yield to the flood of your beauty
My cheap violin and my cross
And you'll carry me down on your dancing
To the pools that you lift on your wrist
Oh my love, Oh my love
Take this waltz, take this waltz
It's yours now. It's all that there is



Take This Waltz - Leonard Cohen

sexta-feira, setembro 21, 2007

Adoro isto.



Postcards from Italy – Beirut

Vir aqui deixar bocados de mim e daquilo que vai fazendo os dias é o que acontecerá enquanto for vivo (ou não me cortarem a Internet). Seja com que frequência for, sendo que a coisa só poderá ter tendência a melhorar.

quinta-feira, setembro 06, 2007

A rua da doçura.


Cláudia Schiffer

Paguei pela primeira vez a uma mulher para ter companhia feminina. Quis que cozinhasse e falasse mal da sua família enquanto eu a ouvia. Só. Estava linda, condição absoluta para as minhas economias.

Não era para sexo porque para isso não precisava dela. Quis uma mulher, foi isso que pedi e foi isso que tive.

Quase que a amei.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Culpado.



Ouço-te com esse empenho e orgulho de início de despedida. Discutes e atiras-me com a calma a esconder-se de ti. A tua voz aumenta muito mais de emoção do que de altura.

Começaste tão bem, muito ferida mas com a dignidade que já se sabia não estar altura do que sentes. Não dás vazão a tantas palavras, escusas de tentar, é melhor começares já a gritar baixinho, com o sal as lágrimas e a minha maior estupidez a afundar-me na lama que não faz ninguém bonito.

Devia matar-me ou morrer já. Fulminado pelo apuro de saber que nunca me rirei desta hora. Nem enterrado estarei mais baixo do que isto.

Modinha de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, cantada por Olívia Byington.