Cicatrizes.

Eram quatro irmãos e duas irmãs habituados com a fome. Naqueles anos a vida não era fácil e, em adultos, todos se lembravam do primeiro par de sapatos que provaram, tal foi o atraso com que lhes chegou.
Além da fome e do apelido com princípios de fama por más razões, pode dizer-se que os rapazes não eram flor que se cheirasse, no que ao trato diz respeito. Chegaram a roubar, mas sempre para comer. Entre favas e laranjas, qualquer coisa servia. Quando iam às favas, avisavam a mãe para pôr uma panela de água ao lume para as cozer assim que chegassem. A verdade é que muitas vezes, depois de descascadas, mal chegavam para todos, adiante.
Um dia o mais novo foi apanhar laranjas à quinta dos Palhas. À boquinha da noite, passou com cuidado no arame farpado do costume, só que desta vez estavam dois homens à sua espera.
Amarraram-no a uma árvore depois de lhe assentarem umas chapadas com muita força. Além de magríssimo, os dois juntos nem o deixaram falar antes do primeiro estalo. Seguiram-se insultos e alguns avisos para não voltar ali. O mais bera acendeu um cigarro e, apesar do outro lhe dizer que deixasse estar, queimou-lhe as pontas de todos os dedos.
Seguiram-se mais caneladas, gritos de piedade (que por acaso era o nome de umas das irmãs) e queimadelas nas mãos.
Quando o soltaram, levantou-se muito à pressa como uma marioneta ainda com cordas, virou-se para o do cigarro e, aos gritos e a chorar, disse que só ia ali porque precisava de comer, que as laranjas nem eram deles os dois e que ao dono não faria diferença que as levasse.
(Continua).
Além da fome e do apelido com princípios de fama por más razões, pode dizer-se que os rapazes não eram flor que se cheirasse, no que ao trato diz respeito. Chegaram a roubar, mas sempre para comer. Entre favas e laranjas, qualquer coisa servia. Quando iam às favas, avisavam a mãe para pôr uma panela de água ao lume para as cozer assim que chegassem. A verdade é que muitas vezes, depois de descascadas, mal chegavam para todos, adiante.
Um dia o mais novo foi apanhar laranjas à quinta dos Palhas. À boquinha da noite, passou com cuidado no arame farpado do costume, só que desta vez estavam dois homens à sua espera.
Amarraram-no a uma árvore depois de lhe assentarem umas chapadas com muita força. Além de magríssimo, os dois juntos nem o deixaram falar antes do primeiro estalo. Seguiram-se insultos e alguns avisos para não voltar ali. O mais bera acendeu um cigarro e, apesar do outro lhe dizer que deixasse estar, queimou-lhe as pontas de todos os dedos.
Seguiram-se mais caneladas, gritos de piedade (que por acaso era o nome de umas das irmãs) e queimadelas nas mãos.
Quando o soltaram, levantou-se muito à pressa como uma marioneta ainda com cordas, virou-se para o do cigarro e, aos gritos e a chorar, disse que só ia ali porque precisava de comer, que as laranjas nem eram deles os dois e que ao dono não faria diferença que as levasse.
(Continua).













