sexta-feira, outubro 13, 2006
De joelhos, vou matar-te aqui. Ensina-me a mexer com isto. O que é o cão? Aponta com o queixo. Tens os lábios a tremer. Não é um trabalho bonito, dizes tu? Então o que será? Se calhar pensavas que te deixava ir assim. O quê? Um sonho? Estou no teu sonho a atormentar-te com esta parvoíce? E tu sempre foste assim? Sempre percebeste a diferença entre o que sonhas e a realidade? Então fazemos assim, para isto não acabar já vou desamarrar-te e tu arrancas por ali a correr. Vais ver que quanto mais tentares correr, mais pregado ao chão vais ficar. É sempre assim nos sonhos.
Amanhã vamo-nos fartar de rir quando me contares isto. O que queres? Não podem ser sempre sonhos em que apareço nua.
quarta-feira, outubro 11, 2006
Nunca fui feliz, ou então sempre fui feliz a dobrar. Tenho uma mulher com o peito generoso e uma amante que nunca quis procurar melhor. Até tenho filhos das duas, dois da legal e uma da que nunca me conseguiu desencaminhar. Como eu, nunca percebi se foram felizes, se calhar não. Bem, tenham sido ou tenham esperado, chegou a hora. Restam-me poucos dias e preciso de me despedir. Terei uma para sorrir quando os paramédicos já estiverem cansados, agora da outra terei que me despedir antes, hoje talvez.
O meu neto leva-me lá, com vergonha, mas leva. Combinei que não abrirá o bico a não ser para quem quiser ou achar que deve. Paguei-lhe a carta, isto é o mínimo que lhe poderia pedir.
Este é um bocadinho da história dos últimos dias de um amigo que morreu na semana passada.
segunda-feira, outubro 09, 2006
Há um homem que já não tem idade para se alistar para a frente. Está triste e bebe como costume. Guarda o umbigo do filho numa caixinha, acha que era duns brincos que ofereceu à mulher aqui há uns anos. Está no bolso do casaco que ainda tem o forro em condições. Já lá foi com a mão muitas vezes, mais do que ao que tem a carteira. Tem saudades da mulher e do filho, das valsas, dos polícias e dos ladrões. Não sabe para onde vai mas espera ter tempo para guardar a caixinha muito mais tempo. O umbigo até é feio mas o seu antigo dono merece umas quantas orações. Lá está, não sabe rezar mas vai aprender com vontade.
E a vontade não lhe falta, a coragem sim. O seu problema sempre fora esse, quando tinha coragem faltava-lhe a vontade e quando se cansava de vontade nunca o deixavam falar.
Dessem-lhe uma espingarda e veriam como aquela conformação morderia. Ai o sabor a ferro! Esse odor e essa luz que entraria, se Deus quisesse, pela vida dos outros adentro.
quarta-feira, outubro 04, 2006
Em "Por quem os sinos dobram" de Ernest Hemingway existe uma grande paixão em que Robert Jordan trata Maria por adorada coelhinha. Tenho pena que assim seja, mesmo com a distância temporal descontada, adorada coelhinha ainda é uma expressão que me parece pouco apropriada.
O autor repete-a muitas vezes aquando do primeiro encontro carnal entre os dois. E o problema deve ser o patamar onde adorada coelhinha se encontra: nem é romântica nem suja o suficiente para ser utilizada por duas pessoas que se amam.
terça-feira, outubro 03, 2006
O meu avô percebia muito de máquinas agrícolas e o meu bisavô chamava-se João da Ponte. Tinha este nome porque nasceu debaixo de uma ponte, parido por uma empregada da família Palha. Naquele dia ela e mais umas assustadas perceberam que a paixão pelo cigano fugidio chorava mesmo muito alto.
A minha mãe contou-me isto mas não me disse qual era o ofício ou especialidade do João da Ponte. Só disse que eram tempos difíceis e que o bisavô João mandou o Avô João estudar para Lisboa, coisa magnífica na altura.
segunda-feira, outubro 02, 2006
People in the city – AIR, live at the Mayan Theatre
Segunda-feira. Ontem deu chuva para hoje, como se uma segunda-feira pudesse dar outros ares que não estes. Cidades cheias, ruas escorregadias, carros de todas as cores com donos atrasados de todas as cores. Candeeiros de rua acesos, baralhados com a luz do dia ou da noite.
Vou fazer-me de morto, e voar por cima de toda a gente.
sexta-feira, setembro 29, 2006

Junto uma dor às que tenho. Todos os dias há uma que se levanta e que vai comigo para todo o lado. Já me habituei a quase todas. Mas de vez em quando aparece uma nova. Parece uma velha curiosa a entrar numa igreja onde não é costume. Mesmo caladinha dá-se logo por ela.
Há dias em que a voluntária anda sossegada ou distraída como se andasse a ver montras.
Há outros em que chega uma das novas, às vezes depois do jantar, quando a cozinha já está quase varrida. Faz-me desarrumar tudo, pede coisas que já estão frias e ainda é capaz de se pôr a falar alto.
A de hoje foste tu que lhe disseste para vir. Ela não confessou mas eu sei que foste tu que deste com essa língua de seda nos dentes.
Fotografia: Thierry Le Gouès
quinta-feira, setembro 21, 2006
Paro e espero que esta espécie de morte, tal é a paz que aqui está, te deixe brincar com o meu suor. Gosto muito desta posição mesmo sabendo que é a que toda a gente imagina ser a dos pais quando estes - como dizê-lo? – fodem?
Mas o mais importante é o teu jogo post mortem, esperas que o meu suor escorra, manso, pela ponta do nariz e do queixo e tentas, não percebi bem ainda, apanhá-lo ou desviar-te. Só sei que ficas quieta, que sorris e que alguma coisa te encanta cada vez que cai uma gota.
Além do mais, nesta posição, entrelaças as pernas nas minhas e fazes força, como um filho às cavalitas numa feira.

Jorge Luis Borges admira-o profundamente. O pai de Gabriel Garcia Marquez disse-lhe para ler a obra deste mexicano se queria saber o que era o Realismo Fantástico.
É considerado um dos maiores nomes da história da literatura mundial.
A sua obra contém toda a violência dos dias e das vidas normais e eu gosto muito disso.
“San Juan Luvina. Aquele nome soava-me a nome de céu. Mas aquilo é o purgatório. Um lugar moribundo onde até os cães morreram e já não há nem quem ladre ao silêncio; pois assim que uma pessoa se acostuma ao vendaval que ali sopra, não se ouve se não o silêncio que há em todas as solidões.”
sexta-feira, setembro 15, 2006
sexta-feira, setembro 08, 2006
Mas como ao contrário dos bichos sabemos que temos de morrer, preparemo-nos para esse momento gozando a vida que nos é dada pelo acaso e por acaso.
Em A ilha do dia antes - Umberto Eco
quarta-feira, setembro 06, 2006
segunda-feira, setembro 04, 2006
À sombra. Com o peso que ninguém conseguirá tirar-me. Meu deus, mãe, como estou contente e pronta a levar por diante alguns dos teus conselhos. Arde-me o corpo, isso tu nunca disseste. Mas não te levo a mal, soubesse que era assim e muito antes o tinha cavado bem fundo onde fosse preciso. Mãe, conta-me, a roupa também te queimava?
Mãe, vou beijá-lo como sei. De certeza que vai perceber o meu gosto, mesmo que seja desajeitado. Estou tão feliz que já lhe perdoei metade da vida que me der.
quinta-feira, agosto 31, 2006
quarta-feira, agosto 30, 2006
quarta-feira, agosto 23, 2006
Tenho a vista cheia de coisas médias, fins de tarde com veleiros no horizonte, cervejas frescas, praias com areia boa, pessoas bonitas e feias a passear na areia molhada e sal nas costas antes de chegar à minha casa de poucos dias. As sensações são boas e não as trocava por nada, mas tenho pena que visualmente as férias sejam um bocadinho saloias. Servem para descansar e para percebermos como é interessante o resto do ano.
sexta-feira, agosto 18, 2006
Despejaste aqui uma data de dias, sorrisos, imagens e dedos na boca que se estão a acotovelar, encavalitar e a tentar passar à frente uns dos outros. Está lançada a confusão, já vi sapatos sem dono, caras encarniçadas e punhos desapertados. Daqui a nada ainda se aleijam, raios os partam. Parecem as cadelas de Povos, tanto querem os filhos que os acabam por matar.
Como se o mundo acabasse amanhã! Quanto tempo levarão até perceber que a vida se arruma um bocadinho todos os dias?
quarta-feira, agosto 09, 2006
quinta-feira, agosto 03, 2006
To hell whith small literature
We want something redblooded
E.E.Cummings, 1935

Deve haver preocupação com os adjectivos e com os advérbios. Tem que se estudar a arrumação das palavras muito bem e estender as frases e os parágrafos de forma convincente. Eu não sei, mas preocupo-me muito mais com ideias do que com técnicas. Admiro muito mais um escritor do que um professor. Acho até que quem sabe escrever bem acaba muitas vezes por ser como um treinador de atletismo, que apesar de ensinar a correr muito, corre pouco.
Isto a propósito de ter ouvido na rádio uma poetisa dizer que precisava de fazer uma paragem porque a sua obra estava a ficar muito correcta mas a perder a força.
Fortes são os conteúdos de histórias como aquela em que a minha mãe estava a comer um bolo de arroz e a falar com a Ermelinda Coveira enquanto esta esfregava uma caveira de uma velhota com uma escova e sabão num alguidar.
- Não te faz confusão estares a comer enquanto eu lavo os ossos da Bininha?
- Mais ou menos, a mim faz-me confusão é irmos todos para aí.
As palavras são só palavras, mesmo que se atropelem ou vistam à pressa de vez em quando. O que acartam é que conta.
Fotografia: Thierry Le Gouès
quarta-feira, agosto 02, 2006
quinta-feira, julho 27, 2006
Balhana.
Mas percebo perfeitamente bem quem bebe e quem fuma sem manias ou freios. Quase que os admiro. Quer dizer, não tenho vergonha de beber só de vez em quando ou fumar apenas quando me apetece. Eu nem vergonha tenho de ter utilizado um adjectivo daquele tamanho no título do post anterior. E naquele grau.
Com esta idade começo a perceber que sou uma espécie de moldura de classe média. Limito-me a andar no pelotão e isso não me desagrada. A fama ou a morte seriam bem piores que isto.
Acho até que dava um bom anónimo numa das filas para as câmaras de gás, daqueles que inventavam afazeres de cabeça para não desatar a fugir pela lama. Coisas como procurar ver a mulher e as filhas do outro lado da rede, ainda que magras. Caso as tivesse, é claro.
terça-feira, julho 25, 2006
Uma mulher ensopa do chão o sangue do filho com toalhas. Um homem sentia as pernas ainda há coisa de um minuto atrás. Um barco arranca sem esperar pelo último fuzileiro que, segundo parecia, ainda ia chegar. Apenas restavam três injecções e uma multidão de deitados. A porta do prédio já se abriu cinco ou seis vezes e nenhuma delas foi com a tua mão. Doze, treze vezes, vá.
segunda-feira, julho 24, 2006
segunda-feira, julho 17, 2006
Nem tudo o que é bom é verdadeiramente bom, nem tudo o que é mau é verdadeiramente mau. Sendo assim, não só não matarei nenhum cavalo sem pensar, como nunca deixarei de perseguir qualquer coisa que me pareça pertencer. Tenho o coração escorregadio e uma baioneta que não vai para paciente.

