quinta-feira, agosto 03, 2006

To hell whith small literature

We want something redblooded

E.E.Cummings, 1935

Deve haver preocupação com os adjectivos e com os advérbios. Tem que se estudar a arrumação das palavras muito bem e estender as frases e os parágrafos de forma convincente. Eu não sei, mas preocupo-me muito mais com ideias do que com técnicas. Admiro muito mais um escritor do que um professor. Acho até que quem sabe escrever bem acaba muitas vezes por ser como um treinador de atletismo, que apesar de ensinar a correr muito, corre pouco.

Isto a propósito de ter ouvido na rádio uma poetisa dizer que precisava de fazer uma paragem porque a sua obra estava a ficar muito correcta mas a perder a força.

Fortes são os conteúdos de histórias como aquela em que a minha mãe estava a comer um bolo de arroz e a falar com a Ermelinda Coveira enquanto esta esfregava uma caveira de uma velhota com uma escova e sabão num alguidar.

- Não te faz confusão estares a comer enquanto eu lavo os ossos da Bininha?

- Mais ou menos, a mim faz-me confusão é irmos todos para aí.

As palavras são só palavras, mesmo que se atropelem ou vistam à pressa de vez em quando. O que acartam é que conta.

Fotografia: Thierry Le Gouès

quarta-feira, agosto 02, 2006

Silly season.

As coisas por aqui estarão em banho-maria até ao final de Agosto. Virei cá de vez em quando mas sem compromissos como os Amores de Verão, esses ardilosos.

quinta-feira, julho 27, 2006

Balhana.

Não sei porque é que não sou alcoólico. Nem sequer suspeito porque é que não dei um bom fumador. Era tão fácil, o problema é que não acho graça beber sozinho e fumar de mais sempre me provocou coisas na boca e na garganta.


Mas percebo perfeitamente bem quem bebe e quem fuma sem manias ou freios. Quase que os admiro. Quer dizer, não tenho vergonha de beber só de vez em quando ou fumar apenas quando me apetece. Eu nem vergonha tenho de ter utilizado um adjectivo daquele tamanho no título do post anterior. E naquele grau.


Com esta idade começo a perceber que sou uma espécie de moldura de classe média. Limito-me a andar no pelotão e isso não me desagrada. A fama ou a morte seriam bem piores que isto.


Acho até que dava um bom anónimo numa das filas para as câmaras de gás, daqueles que inventavam afazeres de cabeça para não desatar a fugir pela lama. Coisas como procurar ver a mulher e as filhas do outro lado da rede, ainda que magras. Caso as tivesse, é claro.

terça-feira, julho 25, 2006

Triste, muito triste, mas lindíssimo.



Funeral - Band of Horses
Perda. Pedra.

Uma mulher ensopa do chão o sangue do filho com toalhas. Um homem sentia as pernas ainda há coisa de um minuto atrás. Um barco arranca sem esperar pelo último fuzileiro que, segundo parecia, ainda ia chegar. Apenas restavam três injecções e uma multidão de deitados. A porta do prédio já se abriu cinco ou seis vezes e nenhuma delas foi com a tua mão. Doze, treze vezes, vá.

segunda-feira, julho 24, 2006

Estranho calor.

Como se costuma dizer, este calor não tem ajudado nada à prática da escrita. Rápidas melhoras é o que prometo.

segunda-feira, julho 17, 2006

Pode-se aprender muito com as premissas de um ditador.

Nem tudo o que é bom é verdadeiramente bom, nem tudo o que é mau é verdadeiramente mau. Sendo assim, não só não matarei nenhum cavalo sem pensar, como nunca deixarei de perseguir qualquer coisa que me pareça pertencer. Tenho o coração escorregadio e uma baioneta que não vai para paciente.

sexta-feira, julho 14, 2006

Tinha tudo o que lhe pertencia ter.



Havia uma mulher que era perfeita. Não só da sua raça como de todas as vizinhas. Era tão perfeita que nem inveja provocava. Vestia-se com tudo menos exuberância e talvez por isso era preciso estarmos com atenção. Até as cicatrizes eram ornamentos da sua pele e da sua cor.

Os homens pareciam distraídos. Apenas um ou outro se matou sem que as famílias tivessem compreendido.

quarta-feira, julho 12, 2006

Rebellion (Lies).



Sleeping is giving in,
no matter what the time is.
Sleeping is giving in,
so lift those heavy eyelids.

People say that you'll die
faster than without water.
But we know it's just a lie,
scare your son, scare your daughter.

People say that your dreams
are the only things that save ya.
Come on baby in our dreams,
we can live our misbehavior.

Every time you close your eyes
Lies, lies!
Every time you close your eyes
Lies, lies!
Every time you close your eyes
Lies, lies!
Every time you close your eyes
Lies, lies!
Every time you close your eyes
Every time you close your eyes
Every time you close your eyes
Every time you close your eyes

People try and hide the night
underneath the covers.
People try and hide the light
underneath the covers.

Come on hide your lovers
underneath the covers,
come on hide your lovers
underneath the covers.

Hidin' from your brothers
underneath the covers,
come on hide your lovers
underneath the covers.

People say let's just die
faster than without water,
but we know it's just a lie,
scare your son, scare your daughter,
Scare your son, scare your daughter.
Scare your son, scare your daughter.

Now here's the sun, it's alright!
(Lies, lies!)
Now here's the moon, it's alright!
(Lies, lies!)
Now here's the sun, it's alright!
(Lies, lies!)
Now here's the moon it's alright
(Lies, lies!)

Every time you close your eyes
Lies, lies!
Every time you close your eyes
Lies, lies!
Every time you close your eyes
Lies, lies!
Every time you close your eyes
Lies, lies!

Every time you close your eyes

Every time you close your eyes

(Lies, lies!)

Arcade Fire – Funeral

Fotografia: Nobuyochi Araki

terça-feira, julho 11, 2006

Para que queres a verdade, se não a aguentas?



Seja o resultado de um tac ou uma conversa baseada em factos reais para além dos teus.

Fotografia: Thierry Le Gouès

quinta-feira, julho 06, 2006

Esmaguemos as nossas bocas, então.

(pensou ela sem a coragem que parecia a mesma de um puxão de gatilho)
Crime Scene.



Algum destes sorrisos foi o que lhe roubou a vontade de dormir? Veja bem antes de o identificar, eles vão virar-se, primeiro para um lado e depois contra si.

Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, julho 04, 2006

Complicadíssima ditadura.

Uma espécie de talha que redobra a alma e me doura os dedos. Vale mais do que a moldura de uma mãe argentina. Recolher obrigatório de todo o choro e vadiagem.

segunda-feira, julho 03, 2006

- Tenho medo.



- De quê?

- De ti.

- Se fosse a ti, também tinha.

Fotografia: Miles Aldrige

quinta-feira, junho 29, 2006

Simples.

Ele sentia uma corda no pescoço e o seu nó de mares que já afogaram demais. Ainda bem que a paixão não é tão visível como um capachinho.

As pessoas mais simples nunca retirarão a dor e o prazer possíveis dessa brutalidade. As suas relações, tal como elas, serão sempre uma prova de desperdício.

quarta-feira, junho 28, 2006

Ocupa o melhor lugar.

O meu avô ensinou-me a afiar uma faca:

Molha-se a pedra e passa-se a lâmina para cima e para baixo sem pressa. Um lado do gume quando vai acima, o outro lado quando vem para baixo. Depois da pedra de amolar, deve-se usar uma lixa de água, a mais fina que se encontrar. Molha-se a lixa, e passamos a lâmina, não só da mesma forma que na pedra, como também no sentido do corte, como se fossemos cortar a lixa mas com a lâmina quase paralela a esta, depois deste movimento a folha deve estar perfeita. Experimenta-se no polegar esquerdo: a faca está pronta se, sem qualquer pressão, lascar superficialmente a unha. Deve-se sempre avisar quem costuma usá-la.

Para saber se o aço é bom, bafejamos a lâmina e vemos o tempo que a humidade leva a desaparecer. Quanto mais rápido, melhor.

Tenho saudades de aprender. Ensina-me a dançar ou a ler.

terça-feira, junho 27, 2006

Faz-me um desenho.



Rascunho. Quero um rascunho, coisa feita à mão. Poupa-me a automatismos e a palermices eléctricas. Nada de truques ou sapateados.

Basta-me algo como um namorado novo. Como se fosse feito quando ainda nem são precisos preliminares. Lembra-te que no princípio até uma conversa faz suar.

sexta-feira, junho 23, 2006

Reza.



Tens a mesma mansidão dos que são demasiado novos para morrer. Doçura e sapiência são temperos raros, próprios da tua perfeição ainda inexperiente. O sono já te abandonou, era bom que a vergonha fosse a próxima. Pensas que um remédio te irá acalmar mas acho que desta vez nem um santo te valerá.

E o futuro que é tão estreito. Lá só cabe a honestidade das promessas que nunca serão feitas ou pagas. Será perfeito, portanto.

Fotografia: Miles Aldrige

quarta-feira, junho 21, 2006

Embora fingir que tínhamos uma vida?



Vou até à igreja, depois passo pelo campo e vejo o fim do jogo. Ainda deve dar tempo para ir até à leitaria e sentar-me cá fora a ver os velhos, as suecas e os sinais.

A vida é um conjunto de ficções sociais, como dizia o outro. Há dias em que preciso mesmo de perceber que errei as respostas todas. Por falar em citações revolucionárias, nunca me esquecerei daquela sem arranjo: Everything you know is wrong.

É por andar de olhos abertos e à pressa que preciso das mentiras lúcidas dos outros.

Fotografia: Sam Haskins

sexta-feira, junho 16, 2006

Johnny Walker.



Desculpa mas não me vou virar. Quero aproveitar este último tempo para guardar mais uns bocadinhos teus. Depois de nos despedirmos vou andar de costas, sempre virado para ti até dobrares a esquina.

Uma vez vi os alunos de um conservatório a fazer um exercício parecido com esta desgraça: andavam de costas, subiam ruas e tentavam adaptar as novas pernas a um passeio gasto.

Andar para trás? Claro que não, isso ninguém consegue fazer. E, caso fosse eu o primeiro a consegui-lo, isto não seria a nossa despedida.


Fotografia: Sam Haskins

terça-feira, junho 13, 2006

Modo de vida.

Aproveitar estes feriados para ler mais, alugar filmes importantes que se perderam no cinema e acima de tudo efectuar trabalhos de manutenção na casa e no carro.

I want to live like common people.
Do you want to sleep with common people like me?



Common People - Pulp

sexta-feira, junho 09, 2006

A primeira vez que forcei a linha dos teus dentes.



Estou num carro embriagado, num carrossel com parafusos a cair, num mar sem bandeira, num sonho, pendurado numa ponte com alguém a pisar-me os dedos, numa bateira virada, deitado num corredor de hospital, com lâmpadas fundidas, a ver marcas de unhas nas ombreiras, a cheirar o sal do meu próprio suor, a chorar, a querer correr sem poder, como no sonho lá de cima, mudo, de vida e de camisa, como quem muda de forças.

Fotografia: Sam Haskins

quarta-feira, junho 07, 2006

O último Landay.



Se dormes, só terás poeira
Eu pertenço aos que, por mim, não dormem a noite inteira

Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, junho 06, 2006

Se não tiveres feridas no meio do peito
Ficarei indiferente, mesmo que tenhas as costas esburacadas como um passador.

Os outros estão aqui:

Mais dois Landays.



Não haverá um só louco nesta aldeia?
As minhas calças cor de fogo ardem-me nas coxas

A minha boca é tua, devora-a, não receies nada
Ela não é de um açúcar que se dissolva


Fotografia: Thierry Le Gouès

segunda-feira, junho 05, 2006

Um primeiro Landay.



Ontem à noite estive com o meu amante: uma noite de amor que não se repetirá.
Como um guizo, com todas as minhas jóias,
tini em seus braços até ao fundo da noite.

Este e outros Landays irão aparecer por aqui. Landay significa “o breve” e é um poema popular curto composto por dois versos livres de nove e treze sílabas, sem rimas obrigatórias. É originário do Afeganistão e são as mulheres pashtun, escravizadas pela sua vivência que os criam. São uma espécie de gritos que comprometem tudo, principalmente os homens desta comunidade.

Fotografia: Zalmaï

quinta-feira, junho 01, 2006

Aparição.



Ah, és tu. Ainda bem que vieste. Já tinha saudades dos milagres que fazes nesta casa.

Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, maio 30, 2006

Obra prima.



All is full of Love - Bjork

segunda-feira, maio 29, 2006

Next.



Sabias que durante a noite e a ruína nem juízo tinha para ouvir as tuas perguntas?

Parecias a dona de um cão com saudades em demasia. Estava feliz mas a tentar perceber se me estavas a fazer festas ou a bater.

Uma vez torturado, torturado para sempre. Só me falta uma tatuagem no braço, daquelas com um número que me envergonhasse todos os dias à hora do banho.

Fotografia: Thierry Le Gouès
Entre vista.

Quando perguntaram ao actor Michael Caine porque aceitava fazer tantos filmes, de vários tipos e aparentemente sem critério de escolha este respondeu: tenho de aproveitar tudo antes que descubram que sou mau actor.

Cada vez que um grande blog faz referência ao Estranho Amor ou o coloca na sua lista de favoritos lembro-me desta resposta. Desta vez enganei o Berra Boi.