quarta-feira, maio 24, 2006

Devastação.



Comecei a ler História Natural da Destruição de W. G. Sebald, e no mesmo dia à noite o meu computador avariou. Perdi toda a informação que estava no disco rígido de forma inesperada e impiedosa. Nem os textos e imagens deste blog foram poupados.

Várias calamidades num só dia. Mas as do livro reduziram as outras a um misto de agradecimento e conformação.

Fotografia: Thierry Le Gouès

segunda-feira, maio 22, 2006

Folheada a cerejeira.



Mantém os lábios húmidos com a língua. Sabes que pelo andar da conversa é conveniente que assim fiquem. Daqui a pouco essa razão chega-te à boca.
Já eu preocupo-me com a nossa cama. Restam-me poucos anos e só penso em quem a aproveitará para a lareira.

As ralações têm a mesma diferença das idades. Pensas nesta noite como eu me espanto com o que estás aqui a fazer.

Fotografia: Thierry Le Gouès

sexta-feira, maio 19, 2006

Evidência.



- Podias ser um querido e ir buscar um copo de água à tua menina.

- Amas-me?

- Tanto.

- Como?

- Quando não estás fico assim com uma espécie de sede.

Fotografia: Thierry Le Gouès

quinta-feira, maio 18, 2006

THE END.

É coisa que não aparece na vida real. Ou pelo menos nunca sabemos se o monstro ainda se vai levantar quando voltarmos as costas.
Yes, I Can Can.



Ouvi dizer que as histórias de Amor não devem ser contadas com pessoas feias. Lost in Translation sem a Scarlett Johansson não seria a mesma coisa? Se Nickole Kidman e Ewan McGregor não actuassem no Moulin Rouge a magia seria menos fugaz?

Não sei.

Nos filmes, os heróis, tal como os amantes, parecem sempre demasiado bonitos.

quarta-feira, maio 17, 2006

Escrito no coração:



Proibido vazar sentimentos.

Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, maio 16, 2006

Culpa.



Depois da onda de suicídios que os desgostos do jovem Werther provocaram por toda a Europa, resta-me apenas lembrar que nenhuma mulher deve, em caso algum, limpar o pó a uma arma de fogo.

Não é importante o nome da personagem que mudou tanto o mundo real, mas, pelo sim, pelo não, chamava-se Carlota.

Fotografia: Man Ray

segunda-feira, maio 15, 2006

Ingratidão.



Ou as mulheres não são muito românticas, ou a actual tradução para português de Werther de Goethe, livro referência de todas as histórias de Amor e, quanto a mim, melhor que Romeu e Julieta, é uma porcaria desmesurada. Também se pode dar o caso de as mulheres, pura e simplesmente, serem ingratas. Claro está que nenhum destes dois enviesados comportamentos é grave ou sequer merecedor de observação.

À falta de uma boa conversa ou promessa interessante, aos homens basta-lhes o sexo. E é esta, e não outra, a grande vantagem destes.

Fotografia: Philippe Halsman

quinta-feira, maio 11, 2006

Africa Korps.



Fazia pontaria às dunas por brincadeira sem saber se aquilo era mesmo dele ou do calor. Se calhar quando fosse altura de disparar a sério desataria a tremer, os nervos, a malvada areia e mais os cabrões que o mandaram para aquele desterro. Aqueles três já não se podiam aturar e o careca andava sempre lá fora, qualquer dia ainda ficava a estrelar no próprio sangue, deserto. Há 4 dias à espera que venham os bifes, aquele tempo todo para perceber porque o mandaram para ali e nada, nem uma sombra. Aquele forno parecia um do inferno sempre que chegava o meio-dia.

E o careca lá fora a tentar fritar um ovo na caixa das ferramentas, isto só visto. Não imaginas o que nos passa pela cabeça. Não me posso encostar a nada que está tudo a escaldar, estou desconfiado que se me rebentarem o carro e ficar fechado cá dentro nem noto a diferença.

E tu? Tens ido ao jardim sozinha? Foste a Berlim tratar dos papéis do teu pai, eram para quê mesmo? Já dançaste com outro desde que me vim embora?

Promete-me que tens o mesmo cuidado com as saudades que eu tenho com as balas.
Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, maio 09, 2006

Descolonização.



- Sabe aquelas nódoas que ficam nos panos, e que, por mais que os lavemos, ficam sempre lá?

- Sei.

- O que acabei de lhe contar é uma dessas na minha vida.

Fotografia: Thierry Le Gouès
Não sei / não respondo.



Metade do que desejo serviria para me condenar há muitos anos atrás. A mim e a ti, que uma coisa destas é tudo menos obra deste mundo.

Nunca pensei que fosses tu a mandar-me para a fogueira.

Fotografia: Thierry Le Gouès

sexta-feira, maio 05, 2006

Luto.



Podia ter areia na boca, mangas molhadas, e dedos pegajosos, uma camisola encardida ou qualquer outra coisa que corroborasse esta falta de juízo, amiga de infância.

Não há um parente que diga dá um beijinho a esta senhora? Um que te obrigue a ferver numas poucas de lágrimas e que me salve desta viuvez?

Fotografia: Thierry Le Gouès

quinta-feira, maio 04, 2006

Contracção.



Preposição é uma palavra inflexiva que liga partes da oração, exprimindo as relações que elas têm entre si.

Proposição é uma palavra que está relacionada com o acto ou efeito de propor. Significa proposta ou oferecimento. Também é a parte do poema em que se indica o assunto de que se vai tratar.

A língua, a confusão, as leituras diversas. No fim, era o verbo.

Fotografia: Thierry Le Gouès

terça-feira, maio 02, 2006

Envelhecer.



Fiz anos neste fim-de-semana grande. Sem ter muito jeito com tesouras ou navalhas, recebi de presente esta cadeira de barbeiro. Sei que cumpriu bem a sua função durante décadas na Barbearia Raposo da Rua dos Correeiros. Esta e mais três foram as últimas a sair e a apagar a luz do nº 42.

Olho para ela e tento adivinhar que tipo de vidas passaram por ali para ficar mais bonitas. Escritores, marujos, velhos peneirentos, miudos mal ou bem criados, galãs de Domingo, comerciantes com peso a mais e uma ou outra sobrinha de um empregado.

sexta-feira, abril 28, 2006

Estacionário.



Escrevi-te uma carta no braço. Não tinha papel e olha, foi onde me deu mais jeito, no esquerdo. Este ponto de exclamação aqui ao pé do pulso fez-me cócegas. Tive que fechar a mão com força como se fosse tirar sangue.

Procurei uma esferográfica no porta-luvas, a música que ouvimos ontem à noite fez o resto.

Pareço e sou um estudante mal preparado.

Fotografia: Helmut Newton

quinta-feira, abril 27, 2006

Esta é uma cor que vai bem com a vergonha,
com o interior e com o pequeno-almoço.



Branco foi o teu começo. Branca é a cal do teu fim.

quarta-feira, abril 26, 2006

Um homem com convicções é pior que um mentiroso.
Umberto Eco.



Sempre me bati contra o ditado “nunca digas desta água não beberei”

Não é que as palavras só por si me chateiem, mas a certeza de que nunca farei certas coisas é tanta que, cada vez que alguém se socorre do dito, me dá vontade de rir. A realidade, ou a verdade é que, cá por coisas, preferia morrer do que beber de alguma poça que não servisse. E isto não é uma convicção, é que a vida, pelo menos a minha, é mesmo assim.

Se ainda assim houverem dúvidas, quem as tiver poderá perguntar-te:

- É verdade que a boca deste homem nunca terá licença para a beijar?

Fotografia: Wing Shya – 2046 – Wong Kar-Wai, 2004

quinta-feira, abril 20, 2006

Encontrei coisas em ti que nem sabias que as tinhas.



Fotografia: Paris, anos 20 – autor desconhecido.
Birra.

As crianças choram por se sentirem injustiçadas. Apeadas da contrariedade, aprendem nos anos tenros como a vida é. Os nãos são muito maiores do que os sins. São mais feios, teimosos e corpulentos. Os sins são simpáticos e compreensivos, os outros têm a pele mais rugosa e a voz cheia de gafanhotos.

Antes de deixarem esmorecer o choro, ficam por ali, numa lamúria à espera que passe uma pergunta de adulto. Assim que a apanham, o sentimento de injustiça levanta-se apressado e a sacudir-se para apontar, com o dedo babado, a razão das primeiras catástrofes.

quarta-feira, abril 19, 2006

Como o ar que respigo.



Há uma alegria única quando abro um armário, tiro o que procuro, e, antes de fechar a porta, olho para qualquer coisa que adoro ainda que nunca use. Podem ser uma botas pretas ou uma raquete de ping-pong.

Acho que ando, desde pequeno, a guardar coisas para quando for velho.

Fotografia: David Sims
Crente e frio.

Ando a ver da religião que anuncia o maior fim do mundo. Pode ser que ainda precisem de ideias para o capítulo das ausências, pesos no peito e outros azedumes perpétuos.

segunda-feira, abril 17, 2006

A strange kind of love. A strange kind of feeling.




















Um cliente, livreiro, liga-me para passar um novo trabalho. As primeiras palavras da reunião são: João, este é um projecto um pouco diferente. Queremos que desenvolvas capas para uma colecção de contos eróticos para donas de casa. Queremos atingir o mesmo público da Nova Gente e da Ana atrevida. Eu sei, nós somos uma editora de referência intelectual, mas este é um projecto especial.

Depois de ler alguns dos contos, fico a pensar outra vez no público-alvo e no quanto interessante é o projecto. As histórias são boas, mas são, devo dizer, bastante eróticas. Estas coisas lembram-me sempre o revolucionário Relatório Kinsey.

Isto das donas de casa, avós ou reformados terem uma vida sexual não me passa todos os dias pela cabeça. Sinto uma espécie de preconceito inocente.

quinta-feira, abril 13, 2006

Chuva.



Ele amava-a tanto que uma vez se sentiu um homem de sorte por ela não lhe ligar nenhuma. Foi quando lhe passou pela cabeça não ter competência para aquela boca. Dessa vez, e só dessa, ocorreu-lhe não estar a altura de tamanha queda.

O abismo era mesmo ao lado do lancil do passeio que o entretinha. Um pé fora e ela não iria olhar, todos os passos certos até aos bombeiros e ela iria sorrir. Tudo servia de jogo de indicação. Se a matrícula do próximo carro fosse impar ela um dia iria beijá-lo, senão era porque aquele não era o próximo carro.

Mas dessa vez, e só dessa, ele pensou que poderia tropeçar quando mais fosse preciso.

terça-feira, abril 11, 2006

Calor daninho.



Nem me lembro que poderíamos fazer Amor, como se isso pudesse ficar para depois. Parece estranho, mas não é isso mesmo que sente quem ama desmesuradamente? No fundo nada interessa a não ser a presença que açambarca a ordem natural das coisas e do pensamento.

A seu tempo a roupa ficará amestrada o suficiente para se esconder.

Lembras-te quando nos beijávamos até ficar com a boca como no Inverno?

Fotografia: Wing Shya – 2046 – Wong Kar-Wai, 2004

quinta-feira, abril 06, 2006

A idade mais triste.













Será quando perceber que nunca irá percorrer a riviera francesa num Delahaye azul, de mão dada com o homem da sua vida ou sonho. Nem com o vizinho da frente, quanto mais com um actor alto que lhe explicaria donde vem a seda do lenço que tem na cabeça. Mais por culpa dela do que do destino, coisa que nunca admitirá.

Antes quer a mão cheia de nada do que responder ao estranho que a aborrece com a conversa das horas. Nem o seu cheiro a lavanda lhe é capaz de rasgar a simpatia da boca.

Bastava-lhe um homem que não a deixasse sair assim, com a saia tão curta, para ser feliz. Mas isso é coisa que demora uma vida a perceber.

quarta-feira, abril 05, 2006

Gostava de ser esquisito.



Tenho vergonha de me satisfazer com as coisas boas dos dias. Não encontro nenhuma razão antipática no meio das que chegam. As tardes mais encorpadas e as roupas mais leves são como vizinhas cínicas. Parece que tudo me deixa migalhas de paz à porta. De repente, a rotina serve-me com um vinagre de muito melhor nascença.

Encho a barriga de doces antes do jantar e já ninguém ralha. Tudo diz que sim, fico cercado de sapiência e beleza enquanto o rabo das sobras desliza à pressa para dentro de uma cova.

Nunca fui feliz com o mundanismo, deve ser por isso que ganho cor quando me lembro de ti. Tenho o que basta para fazer inveja a um simples e isso está longe de ser um descanso.

segunda-feira, abril 03, 2006

O que o diabo amansou.



Há qualquer coisa na tua janela que não é desta rua. Tão novo que sou e este cansaço que mais parece uma promessa bem paga. Nunca mais sais para comprar o pão. Era bem novo quando percebi que se podia gostar de alguém só de olhar, depois cresci e afastei-me dessa crença. Agora cresci ainda mais por reencontrá-la. Depois de tantos anos apaixonei-me outra vez e tu internada nessa ignorância.

Nunca mais desces, e eu a contar os pássaros que se perdem no bebedouro. A dona Silvéria tem lá o que mandaste guardar, despacha-te que ainda o dispensa a algum miúdo atrasado.

Despacha-te. Despacha-te. Despacha-te. Despacha-te. Despacha-te. Despacha-te. Despacha-te. Despacha-te.

Que andarás a fazer?

Talvez na quinta-feira ponha perfume e coragem para te perguntar as horas.

Fotografia: Fa yeung nin wa (In the mood for love), Wong Kar-Wai – 2000

quinta-feira, março 30, 2006

O meu pai.



Morreu em Agosto de 1995 com 47 anos por causa de um cancro. De vez em quando choro por ele e no fim pergunto-me como será quando chegar aos mesmos 47. É que uma coisa é recordá-lo ainda assim, mais velho como devem ser os pais, outra é, caso tenha essa sorte, chegar à idade com que morreu. Como é que vão ser os sonhos e as recordações a partir daí? Deixará de ser um mero pai para passar a ser um cúmplice maior ou um miúdo caso passem muitos anos? Nunca o vi como um garoto mas, se calhar, essa vai ser a única recompensa da maior injustiça que vivi.

Saber que não vou perceber muita coisa deixa-me tranquilo. Não fui eu que inventei a vida como ela é, e isso apazigua-me o estômago na hora de adormecer.

Fotografia: Nobuyochi Araki

quarta-feira, março 29, 2006

Hello Stranger.

Gosto de visitar sítios perto da perfeição.

Don’t stop loving me.
I can see it draining out of you.
It meant nothing.
If you love me, you’ll forgive me.