sexta-feira, março 10, 2006

Obrigado:

Porque eu também senti o pranto dela dentro de mim como se estivesse espremendo o trapo dos nossos pecados.

Em: A planície em chamas - Juan Rulfo
Um suspiro por:



- tocar um dedo que não é teu na campainha;
- abrir a caixa do correio vazia;
- dançar sempre com outra;
- cada colher de açúcar demasiado cheia;

Fotografia: Wing Shya – 2046 – Wong Kar-Wai, 2004

quarta-feira, março 08, 2006

A vida foi-se embora antes da morte chegar.

Tenho um amigo que é velho e que está doente. Quando era novo teve dinheiro, filhos uma mulher dedicada e uma amante de quem também teve filhos. Foi inteligente e portanto um pouco distante das pessoas, da sociedade e de algumas normas.

Trabalhou sempre em demasia, foi roubado e tinha um medo gigante de andar de avião. Agora está em casa à espera que o chamem do hospital para ir lá deixar metade de uma perna. Problemas de circulação e outros ainda mais graves não o deixam sossegar.

No intervalo das lágrimas às escondidas deve lembrar-se do almoço que, aqui há uns anos, preparou para uns amigos, onde o Eusébio também estava.

terça-feira, março 07, 2006

Medo do escuro.



Deitar-me cedo, para que as palavras que faltam de dia me completem de noite.

Fotografia: Wing Shya – 2046 – Wong Kar-Wai, 2004

segunda-feira, março 06, 2006

Carga máxima.



Que barulho fazem as chaves na tua mão? É o eco da tua vida a subir ou o preço da tua beleza a descer o que ouço nestas escadas? Fechaste bem a porta?

Tens novas palavras de elevador para o caso de aparecer alguém? Não. Claro que não tens, tu não precisas, és mulher e isso de falar do tempo em elevadores é coisa típica de homens. Aprendeste depressa demais a não responder a estranhos como eu.

Fosse alguém normal e já tinha, com esta idade, apanhado um estalo por causa dum beijo mais do que justificado. Seria para aí entre o 3º e o 7º andar, longe da descolagem e da boa tarde ao mesmo tempo.

Fotografia: Wing Shya – 2046 – Wong Kar-Wai, 2004

quinta-feira, março 02, 2006

Checkpoint.



Não sei o que é este blog. Não sei se é bom ou se não é grande coisa. Às vezes acho que é foleiro. Outras engraçado. De vez em quando parece-me demasiado lamechas ou dramático. Há textos interessantes mas há outros que nem por isso. E também há coisas mal escritas, nem vos digo nada. Nem sei onde é que estava quando mostrei tais avantesmas.

A única coisa que me salva é saber que nunca tive grandes pretensões. Não só não acredito em escritores tão novos como eu, como não respeito nenhuma regra que diga respeito exclusivamente aos blogs. Os links aqui ao lado só lá estão porque gosto sinceramente destes blogs, o que não significa que não aprecie tanto ou mais outros que por relaxe ainda não estão lá.

Tenho cada vez mais leitores e cada vez mais referências. Já fui linkado pelos blogs que mais respeito e elogiado quase sempre de forma injusta ou inocente.

Sei, desde o princípio, que isto de escrever sobre Amor é como andar sobre gelo fino.

Bem, seja bom ou mau, está na hora de continuar tal e qual como está.

quarta-feira, março 01, 2006

Cercado 5.1



Há coisas que não são para apanhar. Delas se deve atravessar para o outro lado da rua, virar a cara e fingir que não se conhecem. A bem de qualquer juízo, abandonemos o que nos ultrapassa. A vida ou o tempo irão varrer isto e apertar a mão dos embriagados.

Conheço demasiado bem o chão. Tão bem que às vezes não sei se já me levantei ou se continuo aqui agarrado à maçaneta do teu quarto.

Como dizem nos filmes, o Amor é um sítio estranho.

Fotografia: Mulholland Drive, David Lynch – 2001

domingo, fevereiro 26, 2006

O Carnaval também tem coisas boas.



Este da América do Sul, mais propriamente de Buenos Aires, fascina-me.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Tudo boas raparigas.



No mood de Hong Kong tiram-se os sapatos a quem é raptado. Descalça-se a vitima e deixa-se a prova no local onde a liberdade voou. Para além de confirmar às autoridades que foi mesmo um rapto, dificulta uma eventual tentativa de fuga, e, já agora, também serve como humilhação ao amarrado.

- Já reparaste que máfia é feminino?

- Vê lá se queres que te parta os polegares.

Fotografia: Fa yeung nin wa (In the mood for love), Wong Kar-Wai - 2000

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Fixação cientifica.



Até onde queres chegar com o silêncio? Achas que é ele o melhor a aconchegar-te? Pensas que a sua cumplicidade te salva ou te leva para um coito?

Porque me exiges a excelência se só queres a mediocridade.

Fotografia: Fa yeung nin wa (In the mood for love), Wong Kar-Wai - 2000

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Penalti.



Os defeitos e as marcas do uso são a melhor coisa da casa da minha mãe, que era a dos meus pais e que veio da minha avó. Conheço-os de cor e passo-lhes a mão sempre que lá vou à dobrada de Domingo. Marcas no chão com cheiro a cera ou riscos nas portas abrem-me o apetite para os mesmos talheres e as mesmas pegas.

Lembro-me dum desses almoços em que o meu tio Camilo explicou o que era um lambaz. Segundo ele, é um pano de taberneiro que serve para limpar tanto o balcão, como mesas ou facas gastas e fundos de copo. É uma espécie de costas de mão que tanto alivia os bigodes do morangueiro como manda embora um desgadelhado.

Fotografia: Henri Cartier Bresson

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Tango.

Não sou o único a admirá-lo, pois não?







Fotografias: Getty Images - Buenos Aires, Argentina.
Frida Kahlo e Diego Rivera.



Ou como dizia a mãe da pintora: a pomba e o elefante.

domingo, fevereiro 19, 2006

Frida.



Tenho um problema: gosto mais das coisas profundas do que das outras. Histórias de Amor, por exemplo, prefiro as de Shakespeare ou Goethe. Se não forem as destes prefiro as reais como a de Frida Kahlo e Diego Rivera.

As coisas que merecem a pena chegam, tantas vezes, embrulhadas em lágrimas.

O objectivo deste blog não é a infinite sadness é antes o contrário, o caminho pode não ser o mais curto mas é o que me parece melhor.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

As aparências e as ilusões.



Os nossos dias deviam ter legendas ou mesmo voz off como as séries fraquinhas. Palavras que dissessem coisas longe da verdade como as filhas de um mau tradutor. Ou vozes demasiado graves para serem a da nossa inconsciência. No fundo devia haver qualquer coisa que se assemelhasse a um amigo adolescente em que nada lhe cabe na boca. Daqueles que nos desmascaram todas as fraquezas a quem devem.

Fotografia: Mario Testino

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Queres palavras.

Aqui as tens. Para ti. Como dantes, quando nem sabia onde iam parar. Guarda-as, afinal és a razão tardia e maior pelas que hoje me sobram.
As almas não precisam de dietas.



Desde pequeno que me lembro de ouvir coisas acerca dos castigos fora de horas. Até a justiça reclama o seu açoite dentro de um prazo razoável. A gravidade deve punir-se a quente, antes de tudo, se for uma reprimenda de bom senso.

Mas nem tudo é assim tão urgente. Para uma alma esfomeada qualquer obrigado serve, e se for de um dia para o outro parece que ainda sabe melhor, como os pratos rechonchudos.

Fotografia: Robert Capa

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Armada, invencível.



Explodiu-me uma bomba no peito. Uma antiga, que estava esquecida no meio de umas ervas que ainda hoje passam ao lado da linha do comboio.

Tenho todos os gritos de todos os soldados mortos para dar.

Estou infinitamente feliz.

Fotografia: Robert Capa
Amanhã.

Na Rádio Comercial, ao meio-dia, uma hora deste blog.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Vais para que andar?



Sei que todas as pessoas têm momentos de puro delírio como os que os espelhos de elevador testemunham. Caretas, caras de sedução e de mau, de bailarinos e de assanhado. Gritinhos e parvoíces que deslumbrariam quem visse. É aí que vemos o quanto bons actores poderíamos ser.

Irrita-me nunca ver as tuas. No fundo essa parte de genuinidade nunca me pertencerá. Nem a mim, nem a ninguém, é o que me vale.

Devia ser um Deus, mesmo amador, que conseguisse estar em todos os teus lados.

Fotografia: Henri Cartier Bresson

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Dias Coveiros.



Doem-me as mãos, mas não posso largar assim o coração a escaldar. Já percebi que esta despedida é muito maior do que pensava. Vou sentar-me, sentar talvez não seja boa ideia, vou ficar aqui encostado à porta da cozinha.

Agora pára de chorar e pede-me coisas impossíveis. Convence-me que daqui a muitos anos, talvez até quando já houverem filhos de outros, nós nos revisitaremos com sorrisos de Domingo e roupas falsas.

Pede-me, por favor, para esquecer a espécie de doença que nos amputa o resto das noites. Diz-me que saia e que leve as fotografias onde estou melhor. Segundo tu, estas farão falta para quem vier perceber o quanto irás morrer pela minha lonjura.

Fotografia: Henri Cartier Bresson

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Papeis, por favor.



Se logo à tarde houvesse uma alfândega ao fundo da minha rua? Se tu pedisses para me declarar? Se um beijo me interrogasse durante uns tempos?

Fotografia: Henri Cartier Bresson

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Nada iria ser como depois.



Imagino-me casado contigo. Numa destas relações modernas, em que, por exemplo, seria eu a vazar a máquina da tua roupa interior. Novamente a desdobrá-la e a expô-la ao vento que nunca me saiu da cabeça. Tenho as mãos a tremer, húmidas e sem vergonha nenhuma.

Fotografia: Peter Lindbergh

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Pai?



Quando era criança lembro-me de perder de vista os meus pais. Olhava à volta e só via pânico, depois descobria o meu pai a sorrir sentado na mesma cadeira da esplanada.

Era o fim do mundo e uma aparição divina, ali, em menos de 10 segundos.

No fundo era uma explicação da própria vida e nem eram precisas palavras.

Fotografia: Peter Lindbergh

terça-feira, janeiro 24, 2006

Sindroma de Estocolmo.



No dia 23 de Agosto de 1973, três mulheres e um homem foram feitos reféns num assalto a um banco de Estocolmo. O rapto durou 6 dias.

No final os reféns acabaram por desenvolver uma relação especial com os raptores e duas das mulheres acabaram por casar com eles.

Fotografia: Herb Ritts.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

A idade e o peso.



Dentre as coisas que não sei lidar, o peso na consciência de ter alterado o destino de alguém é das maiores. Sei que a minha gestação e nascimento alteraram o da minha mãe para diante. Mas esse não me vem pedir contas, afinal delas não tive a culpa.

Agora os outros é que não sei. Que legitimidade tive eu de ter estudado e saído à noite com aquelas pessoas? Interferido nas bocas novas, dito as verdades da altura e prometido mundos sem fundo? E a responsabilidade de convencer alguém do que vejo?

Até as moedas que dou a um arrumador fazem parte da sua morte a prestações.

Terei o direito de alterar alguma coisa?

Não quero mudar nenhum mundo, por mais pequeno que seja.

O meu destino deveria ser apenas um anfitrião exímio em dizer que não estou.

Fotografia: Herb Ritts.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Como se fossem sete vidas.



A inexperiência dos namorados assusta-os.

- Porque paraste?

- Que barulho foi este?

- Não sei, mas deve ter sido um gato ou assim.

Fotografia: Herb Ritts.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Senhoras e senhor.



Ouço vozes. Apresentam-te como se a minha vida fosse um programa de variedades com demasiadas lantejoulas. Numa sala com fumo e ao mesmo tempo num coreto de Inverno. Bebi demais, as palavras começam a ser demasiado redondas para a língua. Há palermices como uma banda de carecas e bolinhos picantes ao lado dos beijinhos.

A tua voz na minha cabeça sem se calar ou esmorecer. Tombada como o vinho da fartura. O meu peito é uma miséria engravatada.

terça-feira, janeiro 17, 2006

A Quai.



Gosto de máquinas. Um acordeão ou uma bomba de tirar água servem na perfeição para me distrair. Se pudesse parava em todas as esquinas a observar coisas que não compreendo. Fascinado como alguém com dois anos a recolher insectos ou beatas.

E automatismos? O coração a acelerar no final como uma música cigana ou um grito de presa. Dançarinos empenhados em rodas vivas e vestidos suados, a rir e a ajeitar o que resta do penteado.

Sacode o decote e pede-me para te soprar a nuca. Isto é apenas um intervalo.

Fotografia: All is full of Love - Bjork.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Rubor.



Transformas-me em qualquer coisa que não sou bem eu quando nos encontramos. Parece que recolho para dar lugar a alguém que vai fazer boa figura por mim. Coro, sorrio, digo coisas que nunca soube e guardo as migalhas das tuas frases.

Fico atrás das palavras que te servem de entretenimento. A estimar-te como quem adormece um filho com pouca febre.

Fotografia: Helmut Newton.