quinta-feira, janeiro 05, 2006

Adeus.



Entre os hábitos que perdi com o crescimento, há um que vou retomar um dia destes: passar a usar lenço. Tal como o meu pai e o meu avô, também eu fui influenciado, a partir de certa altura, a sair de casa com um quadradinho de tecido engomado em muitas partes.

Serviam para tanto que nem sei porque os deixei para trás.

Nas horas de adeus, e nas outras, não quero cá coisas em papel. Quero carne, lágrimas e algo que me ensope a alma. Quero coisas com o meu cheiro e com o meu desmazelo.

Fotografia: Getty Images

Lágrima.



Fotografia: Getty Images

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Passa outro e até parece o mesmo.



Há dias em que nada acontece. Nesses, a vida limita-se a completar o calendário. Existem porque sim e ela esperançada num depois melhor. Para amanhã, nada a declarar.

Às vezes gosto desta madorna. O excesso de tempo lembra-me sempre um relógio apressado de amante.

- Novidades? Ninguém morreu, fugiu, bateu com o carro ou foi apanhado com outro na cama?

- Não, nada. Hoje nem as flores do adro mudaram.

Fotografia: Helmut Newton.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Perdição.



Tenho pena de pessoas dependentes de um único vício ou virtude. Sobre elas pende o desespero fácil do destino ou um acumulador de frustrações. Nada há de mais triste que um escritor falhado ou um músico de metropolitano.

Apenas percebo um homem ou uma mulher que pintem a vida e o cabelo de preto para agradar a alguém que os roubou.

Fotografia: Helmut Newton.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Confirma-se.

A mulher que está no post anterior é a Isabella Rosselini. Sílvia, obrigado pela ajuda.

Prescrição.



Sinto-me como um doente a quem todos querem disfarçar a verdade. Nada do que me rodeia deseja mal. Disfarçam quando pergunto por ti. O espelho que traz os dias volta os sorrisos e as caretas a meu favor, diz para não me cansar e para voltar para a cama.

As ruas, por elas, drogavam-me de boa vontade. O céu diz que já passa e os outros sorriem sem me conhecer.

Gostava de me levantar daqui, de voltar a ver o mar de desperdício. Gostava de provar mais do que este deserto que até pelos pulsos me entra.

Fotografia: David Lynch e uma bela mulher por Helmut Newton.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Algures numa música da PJ Harvey:



You're the only story that I never told
You're my dirty little secret, wanna' keep you so
Come on out, come on over, help me forget
Keep the walls from falling on me, tumbling in
This is love that I'm feeling

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Strange little girl, where are you going?



És esquisita e não sabes a idade certa para te perderes. Vens do campo com o brilho do gelo nos olhos. Tudo te cerca e nada te toca.

És, na nuca, o bafo tépido de uma loba ferida.

Vazas na língua um mar que não há meio de me afogar.

Tu e essa mania de me salvares já irritam.

Fotografia: Helmut Newton

Muito obrigado.

Por isto.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Já passou.



Amparo-me nas coisas mais inesperadas. Na desgraça televisiva dos infelizes ou nas músicas que estavam na nossa moda.

Tenho raízes que há muito não se iluminam, portas que nem eu sei da chave e balhanas numa caixa de sapatos.

Tenho um casaco com um bolso grande do lado do coração que já não me serve.

Precisava tanto de uma boca qualquer que me dissesse coisas que só eu sei ouvir.

P.S. Inicialmente o último parágrafo foi escrito com a palavra “Mãe” em vez de “boca”. Achei que poderiam haver leituras demasiado próximas de uma psicanálise barata e mudei-a.

Fotografia: Helmut Newton

quarta-feira, dezembro 21, 2005

FOGO.



Já pensaste nos homens que morrem em vão? O que pensará um amarrado em frente do pelotão de fuzilamento? Que coisa lhe cerrará os olhos quando ouvir as culatras? Susterá a respiração? Será a infância a fechar-lhe os sonhos?

Será o pânico das palavras que ficaram por dizer que o fazem suar assim?

E em mim. Já pensaste?

Fotografia: Helmut Newton

terça-feira, dezembro 20, 2005

Dobra o polegar e mordisca-lhe a noz devagar.

Lembras-te do que fui?

Demasiada realidade.



Na realidade, eu ficava com o teu cheiro nas unhas e com um sabor a muito na boca. Ficava com o sangue a arder e com alguns músculos mais doridos que outros. Havia uma sede desfigurada e adornos incontroláveis.

Se fosse de verdade era assim. Assim, fica a tua voz rouca que me enche num sopro.

- Tira os pés do chão frio, ainda ficas doente.

- Mais? Mata-me.

A quem fotografou a Angelina Jolie assim, obrigado.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Por favor, perturba-me.



Colecciono quartos. Vazios, de familiares, de hotéis baratos e caros, de quando era adolescente e de quando era ainda mais feliz. Estão desordenados sem ser de propósito, mas bem arrumados. Têm camas onde se amou, leu, riu e morreu. Têm candeeiros que nunca se apagam e marcas no chão.

Têm gente. Mulheres nuas ou crianças a dormir sestas contrariadas. Têm tudo o que seria preciso para te despir. O teu sorriso e o teu corpo sincero, enrolados no principio e descarados no fim.

Fotografia: Henri Cartier Bresson

terça-feira, dezembro 13, 2005

Talvez o romantismo sirva para te sentires menos culpada desta hora que passou.



Onde acaba o romantismo e começa o Amor de verdade? Para quê as músicas lentas se os corações têm vontade de correr?

Arruma a postura e abraça-te a mim com o lábio de baixo meio mordido. Arranja uma desculpa para ti própria, nem que seja a possibilidade da morte mais remota.

- Que brilho é esse nos teus olhos?

- Sou eu que ando à solta dentro de mim.

Fotografia: Getty Images

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Definitivo.



Quero-te como todos os homens querem quem amam. Com a audácia medrosa a corromper a coragem. Ontem vi um filme em que uma mulher disse dos homens: As mulheres ou se possuem ou se deixam. Não há, na verdade, qualquer outro tipo de relação possível.

Olho para nós e não sei em que porta estamos. Numa de entrada era o que eu queria. Sem bater, mas a querer entrar.

Fotografia: Getty Images

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Encontraste-me.



E agora?

Talvez queiras conversar ou saber que tempo vai fazer-me por dentro. Não sei o que dizer e até estou com medo de devorar o saco dos sonhos de uma só vez.

A única coisa que me ocorre é pedir-te que me olhes com o nariz perto do meu e que faças a boca morta.

Fotografia: Getty Images

terça-feira, dezembro 06, 2005

Numa rua, há muito, muito tempo.



Como estará o teu corpo? Lembro-me de te despir devagar e de saber de cor os sinais que a subida do pano me mostrava. Para quem corria como nós as mãos frias eram apenas um insecto moribundo. Havia demasiadas preciosidades naquele espaço, papel de parede da tua avó, lençóis de flanela e coisas que rangiam com a força dos joelhos. Por falar nisso, como estão as promessas que faltam apagar?

Se quisesses saber como me entretenho dizia-te que isto é uma coisa do outro mundo e que a primeira música tem nome de menina.

terça-feira, novembro 29, 2005

Conheço-te.



Na rua ou de leve passagem, conheço-te mas finjo que não é nada com o furacão no meu peito.

Estou em estado de desgraça, ou seja, normal. Queria o fogo de todos os cruzadores e o peso de todas as fábricas dentro de mim. Gostava de ser a cama da vertigem ou um vidro enterrado na areia da praia. Isso é que é vida, isto em que andamos é preto. Quase tão preto como a própria morte. Queria-me apaixonado por ti mas há muito que não posso.

Esta coisa na garganta, isto que me torce a alma, é só de pensar que te podia telefonar.

A verdade do tempo.

Assim tem andado o Estranho Amor, com o peso das inutilidades a roubá-lo do que deveria ser: um diário apaixonado pela vida. Um post por semana, meu Deus, um post por semana.

O tempo, o que se perde, a semana como medida unitária e o Amor fazem-me lembrar a rotina que se aconchega em todas as relações duradouras.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Preocupação.



De vez em quando acordo ralado com pessoas que conheci há muito tempo. Passo-lhes à porta e espreito o que por lá foi dentro. Sei que fazem outra vida, com outros olhos e com mais competência.

O que foram mudou-se para longe. Resta-lhes o corpo que conheci pelos meus dedos. O mesmo que ainda hoje me poderia levar à loucura e à morte no mar de saudades teimosas que me agasalham.

Tenho uma terra, um passado e muitas vontades. Sou feliz. A maior parte dos homens nem sabe para onde chutar a vida que lhes sobra.

terça-feira, novembro 15, 2005

Rugas.



Estou à espera de ser velho ou talentoso o suficiente para conseguir dizer o quanto me faltas.

Será que quando os nossos corpos estiverem estragados pelo tempo já podemos ser felizes? Nem sei que espécie de amor fazer quando toda a beleza se tiver esgueirado.

segunda-feira, novembro 14, 2005

No fundo,

este blog, e tudo o que por aqui se diz, pode ser resumido em qualquer coisa deste tipo:

Amo-te e o que eu mais queria era poder ver-te nua. Tocar e beijar-te, fazer o que toda a gente faz. Cheirar o ar depois de o amor estar feito, abraçar-te e rir por me pareceres muito maior assim deitada. Ficar com a sensação de que agora já posso morrer, como quem vê nascer um filho.

Tudo o que fugir disto é dispensável.

Mão viva.



Todas as decisões estão inchadas por estas nuvens cor de chumbo. A água e o horizonte, tão longe, ajudam-me a ficar quieto. Servem de mordomo e de bandeja, trazem-me imagens das pessoas de sempre.

As que eu mais amei e que me deixaram. Todas, com o sorriso inocente perante o tamanho das saudades e da vontade impossível. Cabem nesta mão, e ainda me sobram dedos. Está velha esta mão que não as conseguiu segurar. Gostava de saber em que parte da linha está a minha vida.

Fotografia: Getty Images

segunda-feira, novembro 07, 2005

Nua.



Conta-me como és quando te despes. Que sonhos tiras primeiro? Por onde começam as tuas mãos? Onde acabam as tuas meias?

Gostas dos segundos de frio antes te entrares no banho?

São assim os meus dias, a imaginar-te nua como as crianças. Feliz com a terra e com a luz que te toca.

Ser adulto é ter a capacidade de dizer sim quando tudo te diz para não beijares.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Para ti,

nem a palavra amo-te adiantou nada. Como nas derradeiras despedidas onde se pede a mão de um “diz que já não me amas”.

Se algum dia tivéssemos namorado, pedias-me para fazer amor uma última vez, antes de dizer adeus?

O Tempo. Sempre o tempo.



Há dias que não deviam aparecer. A idade viciou-me nesta coisa das fases, uma boa, outra má. Uma precede a outra aborrece. Uma vez li que ter saúde é mau porque é transitório. De vez em quando lembro-me desta frase e do que quer dizer.

O tempo incomoda-me por passar rápido ou por não passar mesmo. Lembro parentes desaparecidos e os seus pertences enterrados. As roupas, os objectos na primeira gaveta da mesa-de-cabeceira e os amuletos irracionais desapareceram. Tornaram-se anónimos para os mais novos e órfãos para os restantes.

Tudo passou, até a dor.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Conservador.



Não sei o que procuro, se o champanhe, se uma das coroas da despedida. Não me lembro de ter aberto os olhos quando nasci, apenas sei que levantava muito os braços para alguém me agarrar, enquanto os médicos diziam que era um sinal de vitalidade.

Genica, abraços vazios e cegueira - tudo coisas que ainda me ocupam.

Tenho tanto amor para dar que nem sei onde o pôr, já dizia o outro.

quinta-feira, outubro 27, 2005

terça-feira, outubro 25, 2005

Bem-vinda.



De volta à tua terra e às imagens que te foram queridas. Conta-me como foi o Amor que fizeste.

O pior é imaginar o Amor que fizeste sem mim. Saber que sorriste e suaste sem precisar da minha competência.