quarta-feira, dezembro 21, 2005

FOGO.



Já pensaste nos homens que morrem em vão? O que pensará um amarrado em frente do pelotão de fuzilamento? Que coisa lhe cerrará os olhos quando ouvir as culatras? Susterá a respiração? Será a infância a fechar-lhe os sonhos?

Será o pânico das palavras que ficaram por dizer que o fazem suar assim?

E em mim. Já pensaste?

Fotografia: Helmut Newton

terça-feira, dezembro 20, 2005

Dobra o polegar e mordisca-lhe a noz devagar.

Lembras-te do que fui?

Demasiada realidade.



Na realidade, eu ficava com o teu cheiro nas unhas e com um sabor a muito na boca. Ficava com o sangue a arder e com alguns músculos mais doridos que outros. Havia uma sede desfigurada e adornos incontroláveis.

Se fosse de verdade era assim. Assim, fica a tua voz rouca que me enche num sopro.

- Tira os pés do chão frio, ainda ficas doente.

- Mais? Mata-me.

A quem fotografou a Angelina Jolie assim, obrigado.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Por favor, perturba-me.



Colecciono quartos. Vazios, de familiares, de hotéis baratos e caros, de quando era adolescente e de quando era ainda mais feliz. Estão desordenados sem ser de propósito, mas bem arrumados. Têm camas onde se amou, leu, riu e morreu. Têm candeeiros que nunca se apagam e marcas no chão.

Têm gente. Mulheres nuas ou crianças a dormir sestas contrariadas. Têm tudo o que seria preciso para te despir. O teu sorriso e o teu corpo sincero, enrolados no principio e descarados no fim.

Fotografia: Henri Cartier Bresson

terça-feira, dezembro 13, 2005

Talvez o romantismo sirva para te sentires menos culpada desta hora que passou.



Onde acaba o romantismo e começa o Amor de verdade? Para quê as músicas lentas se os corações têm vontade de correr?

Arruma a postura e abraça-te a mim com o lábio de baixo meio mordido. Arranja uma desculpa para ti própria, nem que seja a possibilidade da morte mais remota.

- Que brilho é esse nos teus olhos?

- Sou eu que ando à solta dentro de mim.

Fotografia: Getty Images

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Definitivo.



Quero-te como todos os homens querem quem amam. Com a audácia medrosa a corromper a coragem. Ontem vi um filme em que uma mulher disse dos homens: As mulheres ou se possuem ou se deixam. Não há, na verdade, qualquer outro tipo de relação possível.

Olho para nós e não sei em que porta estamos. Numa de entrada era o que eu queria. Sem bater, mas a querer entrar.

Fotografia: Getty Images

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Encontraste-me.



E agora?

Talvez queiras conversar ou saber que tempo vai fazer-me por dentro. Não sei o que dizer e até estou com medo de devorar o saco dos sonhos de uma só vez.

A única coisa que me ocorre é pedir-te que me olhes com o nariz perto do meu e que faças a boca morta.

Fotografia: Getty Images

terça-feira, dezembro 06, 2005

Numa rua, há muito, muito tempo.



Como estará o teu corpo? Lembro-me de te despir devagar e de saber de cor os sinais que a subida do pano me mostrava. Para quem corria como nós as mãos frias eram apenas um insecto moribundo. Havia demasiadas preciosidades naquele espaço, papel de parede da tua avó, lençóis de flanela e coisas que rangiam com a força dos joelhos. Por falar nisso, como estão as promessas que faltam apagar?

Se quisesses saber como me entretenho dizia-te que isto é uma coisa do outro mundo e que a primeira música tem nome de menina.

terça-feira, novembro 29, 2005

Conheço-te.



Na rua ou de leve passagem, conheço-te mas finjo que não é nada com o furacão no meu peito.

Estou em estado de desgraça, ou seja, normal. Queria o fogo de todos os cruzadores e o peso de todas as fábricas dentro de mim. Gostava de ser a cama da vertigem ou um vidro enterrado na areia da praia. Isso é que é vida, isto em que andamos é preto. Quase tão preto como a própria morte. Queria-me apaixonado por ti mas há muito que não posso.

Esta coisa na garganta, isto que me torce a alma, é só de pensar que te podia telefonar.

A verdade do tempo.

Assim tem andado o Estranho Amor, com o peso das inutilidades a roubá-lo do que deveria ser: um diário apaixonado pela vida. Um post por semana, meu Deus, um post por semana.

O tempo, o que se perde, a semana como medida unitária e o Amor fazem-me lembrar a rotina que se aconchega em todas as relações duradouras.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Preocupação.



De vez em quando acordo ralado com pessoas que conheci há muito tempo. Passo-lhes à porta e espreito o que por lá foi dentro. Sei que fazem outra vida, com outros olhos e com mais competência.

O que foram mudou-se para longe. Resta-lhes o corpo que conheci pelos meus dedos. O mesmo que ainda hoje me poderia levar à loucura e à morte no mar de saudades teimosas que me agasalham.

Tenho uma terra, um passado e muitas vontades. Sou feliz. A maior parte dos homens nem sabe para onde chutar a vida que lhes sobra.

terça-feira, novembro 15, 2005

Rugas.



Estou à espera de ser velho ou talentoso o suficiente para conseguir dizer o quanto me faltas.

Será que quando os nossos corpos estiverem estragados pelo tempo já podemos ser felizes? Nem sei que espécie de amor fazer quando toda a beleza se tiver esgueirado.

segunda-feira, novembro 14, 2005

No fundo,

este blog, e tudo o que por aqui se diz, pode ser resumido em qualquer coisa deste tipo:

Amo-te e o que eu mais queria era poder ver-te nua. Tocar e beijar-te, fazer o que toda a gente faz. Cheirar o ar depois de o amor estar feito, abraçar-te e rir por me pareceres muito maior assim deitada. Ficar com a sensação de que agora já posso morrer, como quem vê nascer um filho.

Tudo o que fugir disto é dispensável.

Mão viva.



Todas as decisões estão inchadas por estas nuvens cor de chumbo. A água e o horizonte, tão longe, ajudam-me a ficar quieto. Servem de mordomo e de bandeja, trazem-me imagens das pessoas de sempre.

As que eu mais amei e que me deixaram. Todas, com o sorriso inocente perante o tamanho das saudades e da vontade impossível. Cabem nesta mão, e ainda me sobram dedos. Está velha esta mão que não as conseguiu segurar. Gostava de saber em que parte da linha está a minha vida.

Fotografia: Getty Images

segunda-feira, novembro 07, 2005

Nua.



Conta-me como és quando te despes. Que sonhos tiras primeiro? Por onde começam as tuas mãos? Onde acabam as tuas meias?

Gostas dos segundos de frio antes te entrares no banho?

São assim os meus dias, a imaginar-te nua como as crianças. Feliz com a terra e com a luz que te toca.

Ser adulto é ter a capacidade de dizer sim quando tudo te diz para não beijares.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Para ti,

nem a palavra amo-te adiantou nada. Como nas derradeiras despedidas onde se pede a mão de um “diz que já não me amas”.

Se algum dia tivéssemos namorado, pedias-me para fazer amor uma última vez, antes de dizer adeus?

O Tempo. Sempre o tempo.



Há dias que não deviam aparecer. A idade viciou-me nesta coisa das fases, uma boa, outra má. Uma precede a outra aborrece. Uma vez li que ter saúde é mau porque é transitório. De vez em quando lembro-me desta frase e do que quer dizer.

O tempo incomoda-me por passar rápido ou por não passar mesmo. Lembro parentes desaparecidos e os seus pertences enterrados. As roupas, os objectos na primeira gaveta da mesa-de-cabeceira e os amuletos irracionais desapareceram. Tornaram-se anónimos para os mais novos e órfãos para os restantes.

Tudo passou, até a dor.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Conservador.



Não sei o que procuro, se o champanhe, se uma das coroas da despedida. Não me lembro de ter aberto os olhos quando nasci, apenas sei que levantava muito os braços para alguém me agarrar, enquanto os médicos diziam que era um sinal de vitalidade.

Genica, abraços vazios e cegueira - tudo coisas que ainda me ocupam.

Tenho tanto amor para dar que nem sei onde o pôr, já dizia o outro.

quinta-feira, outubro 27, 2005

terça-feira, outubro 25, 2005

Bem-vinda.



De volta à tua terra e às imagens que te foram queridas. Conta-me como foi o Amor que fizeste.

O pior é imaginar o Amor que fizeste sem mim. Saber que sorriste e suaste sem precisar da minha competência.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Aumento.



Reparo que o meu corpo tem novos sinais todos os dias. Parecem recibos passados pelo tempo em que me chegaram coisas boas. No peito, muitos no peito, como marcas do que foi lá dentro.

As rugas são novas e os brilhos são poucos. Aumenta-me a calma, o peso e a saudade. Retiro tudo de tudo o que me pode fazer feliz, até de desenhos animados rudimentares. Daqueles que nos ensinam o que realmente importa na vida.

Fotografia: Getty Images

quarta-feira, outubro 19, 2005

Turvo.

Os olhos sempre foram certeiros. Mesmo no meio de palavras óbvias não mentem. Servem para ver mas principalmente para dizer coisas que a boca não conhece.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Do caso.



Transformou-se numa série, estas últimas fotografias do Estranho Amor. Elogios e pedidos levaram-me a publicar mais uma imagem da mesma série. São o registo de dois dias de trabalho, os bastidores de uma futura marca de joalharia.

É um privilégio poder escolher com quem se trabalha, apontar com o dedo a própria luz, a vida, as pessoas e as vontades.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Deserto.



Por aqui tem sido uma travessia dele. Uma semana sem colocar um texto não é bom nem conforme. Mas é o que acontece quando o coração anda menos ocupado do que o cérebro. É muita a realidade que me tem absorvido. E também esta tem trazido felicidade.

Distracções sem valor quando comparadas com uma paixão. Talvez seja esta a cura para o tamanho das dores que se sentem.

Passou-me pela cabeça suspender o Estranho Amor. Isso não vai acontecer, até porque a estranheza me permite ir amando coisas diferentes. Vamos ver.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Explicação.



Podia tentar explicar esta fotografia. Podia dizer mil coisas, inventar ou dizer a verdade que queres ouvir. Mas acho que se ficarmos por aqui a magia é maior.

Tal como nas discussões, chegámos a um ponto em que nem vale a pena começar a falar. Ao contrário destas, não temos uma cama para resolver.

Temos a imaginação. Tal como um preso na solitária, temos a imaginação e o pânico de quando éramos crianças quase perdidas.

sábado, outubro 01, 2005

Luz.



Tudo o quero é segurar-te como se faz a um animal que procura o colo. Agigantar-me até a minha boca ser grande o suficiente para te beijar inteira e de uma só vez. Aproveitar esse trago e perder todos os sentidos. Receber no peito o coice da saudade a morrer.

Ver a noite a lamber-nos os cabelos enquanto a Lua distrai as sombras. Sentir nos dedos e na vida a luz que nunca se apagou.

terça-feira, setembro 27, 2005

Making of.



Foi assim que se fez. Os elogios e os sonhos. O egoísmo e as tuas palavras. A velocidade a que passaste foi a vertigem que me reformou.

É assim que se faz ou não? Preciso da verdade e de uma boca qualquer. É a inércia que me escalda a língua. É o tempo a passar que quero ganhar.

domingo, setembro 25, 2005

Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me.



Pode amar-se o trabalho? Sim. Se for assim com o álbum dos Cure de fundo, num sítio escuro, com jóias. Com um fotógrafo amigo, com uma das mulheres mais bonitas de Portugal e com o aroma do melhor incenso no ar.

Foi esta semana e é só mais uma das razões pela qual o Estranho Amor tem andado descuidado.

Por vezes, a vida real faz-me muito feliz.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Plátano.



Vêm aí as folhas para o chão e o som das tuas caminhadas de criança. Recordas os cadernos novos, os lápis e as borrachas com cheiro. Lembras-te de te fartares do tempo pouco passado.

Gostavas de ser grande sem perceberes que eras gigante na altura. Pratas de chocolate nos livros e areia do recreio nas botas.

Guardaste aquelas folhas? Olha que o tempo passa e o Outono não demora muito. Traz um saquinho com rugas e solidão.

Agora queres ouvir um amo-te? Dos que desperdiçaste em nova?

sexta-feira, setembro 16, 2005

Combinação.



- Queres almoçar comigo para a semana?

- Quero.

- E se em vez de irmos almoçar mesmo, ficássemos no carro a conversar e a dar os melhores beijos do mundo um ao outro? Na boca, dos antigos que acabavam nas mãos? E que depois nos separavam excitados como alguém novo o suficiente para ter medo? Depois conversávamos outra vez, abraçávamos mais e beijávamos de novo. No fim chorávamos e fim. Nunca há finais felizes.