quarta-feira, agosto 03, 2005

Férias.


Já devem ter reparado que as coisas por aqui estão mornas como o mar de Verão. Até dia 15 ou mais vai ser assim.

quinta-feira, julho 28, 2005

Deserto(r)




Gasto o tempo em romarias escalavradas e indesculpáveis. Invento e entretenho-me a não te ter. As borras do arrependimento secaram e vivem agora nas paredes da saudade. Lembro o teu corpo e todas as revoluções fervilhantes que nos queimaram.

Vivo com a ausência a babar-me os dias.

terça-feira, julho 26, 2005

- Queres encontrar-te comigo ao fim da tarde?


- Posso levar os fantasmas que ando a tentar matar?

Butterfly.




Quero ver as tuas pernas ligeiramente suadas no sofá, as tuas unhas a precisarem de cuidados nas páginas do drama e a luz que parece variar com as letras e os pontos de interrogação.

Quero ouvir os pratos no fim do jantar, perceber que o chão precisa de ser varrido e acabar com o vinho que me faz lembrar o peito de um pelicano.

Quero acordar ou adormecer para sempre neste sonho. Quero rir e amar-te como nunca conseguirei.

Talvez um dia te encontre no meio de uma loucura normal.

Fotografia: Getty

sexta-feira, julho 22, 2005

Soro.




Passa para cá o teu corpo que tanta falta me faz. Só te consigo esquecer quando faço amor contigo, como se o veneno da ausência fosse o próprio antídoto dos hábitos.

Fotografia: Getty

quinta-feira, julho 21, 2005

Vigília.




Nas andanças do calor continua a ocorrer-me apenas uma frase: não tenho nada a declarar.

A minha vida é hoje uma calma do tamanho do escuro. E tu és três luzinhas que vejo através da cortina fechada.

Talvez a frase tenha a ver com férias que não chegaram a descansar, e as luzes com qualquer coisa relacionada com o calor que não me deixa dormir - este e o teu.

terça-feira, julho 19, 2005

Pousio.



Pouso o livro e sinto uma calma estranha como uma interferência boa. O Sol continua pendurado onde costuma, e as folhas das árvores esperam por piores dias. Engraçado, tudo parou como se a morte tivesse passado, apressada, para a casa da desgraça doutrem.

Há aqui qualquer coisa que não bate certo para além do meu peito. Talvez seja o resto de algum vento que já foi alto.

Não deve ser nada. O meu coração anda distraído e livre. Vou continuar a brincar às vidas normais.

Eu sabia que esta vontade de ouvir notícias em vez de música alta não significava grande coisa. Sinto-me como uma sombra onde descansam os sonhos.

quarta-feira, julho 13, 2005

Dia sim, dia não.



As músicas, os livros, os quadros e os filmes guardam migalhas da nossa história. A cor dos lençóis é a mesma esmorecida da minha calma.

Ainda guardo uma revista com dedadas na capa. Daquele creme que perfumava o fim do banho e a ponta dos teus dedos.

E as palavras de Domingo que lambiam o quarto e a cama por fazer. Faltam hoje e sempre que o mesmo Sol me franze mais um dia.

segunda-feira, julho 11, 2005

Travessia do deserto.




Sem ti:

- Sorrisos;
- Dinheiros;
- Almoços assombrosos;
- Boas companhias e novas empresas;
- Poentes cor de salmão;
- Madornas;

De nada valem.

Tudo me chega sedado e apático. Como se alguém se risse de mim e do que significo.

Sem ti até os jardins me parecem automáticos.

Fotografia: Getty Images.

quinta-feira, julho 07, 2005

Uma boa razão.



Só raramente o Estranho Amor cita textos que não foram escritos para ele. Só que eu estou a acabar de ler “A misteriosa chama da rainha Loana” do Umberto Eco. E, meio em jeito de homenagem, meio em jeito de admiração pelo autor, aqui vão dois bocadinhos:

A mulher aparece-lhe como uma Vénus a dormitar na imensidade da sua espuma e, movendo-se lentamente no sono, compõe e decompõe curvas sedutoras com os vagos movimentos do vapor de água que no azul do céu forma as nuvens. Comenta Hugo: «A mulher nua é a mulher armada.»

Dado que sois o meu marido, saí… Não tendes o direito de estar aqui. Este é o lugar do meu amante.

terça-feira, julho 05, 2005

Petit mort.




Encosta a tua boca ao meu ouvido. Canta-me qualquer coisa. O tempo não tem nada a ver com o teu corpo. Sopra devagar a vontade para dentro de mim. Pode ser um choro ou bastam os teus lábios fechados.

Até o vento me aquece nesta cegueira. Canta-me qualquer coisa, até pode nem ser nada. Basta que encostes a tua boca ao meu ouvido.

Só tu consegues parar o bocadinho de morte que o tempo e o dia trouxeram.

segunda-feira, julho 04, 2005

Há sempre uma luz que não se apaga.




Há dias que parecem finais de telenovela. Muitas coisas penduradas há demasiado tempo caem de repente. Tudo se decide, tudo se resolve, as coisas boas são desculpadas e as más desaparecem no precipício.

Nessa noite as estrelas estão tão vivas que nem chegam a sofrer com a manhã.

A única coisa que me rouba a perfeição é o que fica indefinido. O que propositadamente insinua uma continuação.

A única coisa que me rouba a perfeição és tu, a própria.

quinta-feira, junho 30, 2005

Está bem. Fica lá com o coração.




- Tenho aqui umas perguntas, tens respostas?

- Não, mas tenho aqui uns beijos para a troca.

- Serve. Quantas incertezas queres por esse que está a mostrar a língua?

- Sei lá. Mostra-me essas que tens aí na mão atrás das costas.

quarta-feira, junho 29, 2005

Longa se torna a espera.




O fim de tarde trouxe-nos até aqui. Gostei de te ver com a blusa cor-de-rosa e sem pinturas. Simples como o cansaço que nos faz encravar as pálpebras.

Também eu por dentro uso essa cor. Nalguns músculos ou sonhos tecidos por ti, também sem pinturas, perfumados com a lisura do olhar que desvias.

Ainda espero pelas tuas palavras, como se cada uma fosse uma declaração de desassossego que nunca chegou.

terça-feira, junho 28, 2005

Já tive medo de:




- Foguetes;
- Ondas do mar;
- Que os meus pais morressem;
- Escuro;
- Ladrões;
- Viver sem nunca conseguir beijar uma mulher.

Agora os medos são outros. Bem menos importantes dos que já tive. Melhor que os ter perdido é saber que todos eram verdadeiros.

sexta-feira, junho 24, 2005

In a room, under the sea.




Sempre quis viver contigo. Olhar-te por preparar. Reparar nos sítios onde Deus te tocou como nos pequenos altos dos tornozelos. Aqueles que fez o tempo e o que calças. Dizer que os adoro, por cima dos teus protestos de preço da beleza. Rir das cócegas que me fazem querer parar o relógio e o aroma que guarda a bracelete.

Beijar-te e fazer Amor atrasado. Por falar nisso, Amor adiado é Amor perdido?

quinta-feira, junho 23, 2005

Esparto.




Quero deitar-me aqui. Sentir o Verão na cara e o vento a passar nos dedos. Olhar para a frente, com duas ou três ervas encostadas ao nariz. Olhá-las como se fossem estacas gigantes duma cerca que me poupa de ti.

Imaginar o que vê um soldado acabado de cair na desgraça. Crer que o silêncio e a terra aproveitariam a sua última força para um sorriso.

Levantar-me e olhar para a marca do meu corpo nestes lençóis verdes. Só a minha porque a tua anda ocupada a calcar-me os dias.

quarta-feira, junho 22, 2005

Acreditas?


Ermida de Alcamé

E o que se encontra à volta

- Acreditas em Deus?

- Acho que não.

- Então porque gostas de vir aqui?

- Quer dizer, eu não acredito, mas bem que podia. O teu corpo, por exemplo, não pode ser só fruto da química. Não tem uma explicação concreta e pronto.

- Então vens aqui, pelo sim, pelo não.

- É isso.

terça-feira, junho 21, 2005

Já te tinha dito que esta é a melhor história de Amor que já foi escrita?




Trocaste-me o sono por coisas engraçadas. Pequenos estalidos do algeroz, pássaros que fazem a sua vida de noite e estrelas que se aproximam do limite da janela.

O cortinado abana lento com a cor da Lua. O sossego espanta-se com o ladrar de um cão ao longe.

Às vezes fecho os olhos e finjo que estou a adormecer no quarto que me viu crescer. Lembro-me de não ter sono, mas pelo menos tinha a luz da cozinha acesa e barulhos de uma mãe que passava a ferro.

O descanso que me dava ouvir aquelas mãos a engomar-me a alma.

Hoje leio outras histórias de Amor. De preferência boas como as que ainda podemos sonhar.

segunda-feira, junho 20, 2005

Neste preciso momento,


onde estás?

Planície em chamas.




Este moinho fica de frente para a ermida de Alcamé. É um daqueles sítios onde vou de vez em quando para perceber a minha pequenez. Gosto de sentir que sou insignificante e isso faz-me feliz. Não mando em nada neste mundo. Só no Amor que sinto. Que é do tamanho do Sol que me acompanhou.

Gosto de visitar sítios grandes sem ninguém. Em horas que serviriam para te beijar sem vergonha ou calma.

sábado, junho 18, 2005

Sou mais feliz que a maior parte dos homens.

Sei quem é a mulher perfeita. A melhor de todas as que existiram na história. Esta é uma verdade tão grande que exacerba todos os olhares. Uma espécie de universo dentro deste.

Felizmente nunca acreditarás nesta verdade, tu, a própria.

sexta-feira, junho 17, 2005

A partir de hoje é que é.




Há alturas na vida em que tudo se desfaz. Momentos em que decisões novas e irrevogáveis se tomam. Tudo o que fui errado e tudo o que serei certo. Nada em mim será novamente redondo.

Só que amanhã será igual. São mesmo assim os dias que se revoltam à nossa volta.

Demoramos muito a perceber que só existem dois instantes irrepetíveis.

“Se um dia decidirem escrever a minha biografia, basta que assinalem a data em que nasci e a da minha morte. Todos os outros dias pertencem-me.”

Fernando Pessoa

quinta-feira, junho 16, 2005

Abrasador.




- Seremos sempre superiores a qualquer máquina.

- Olha agora. O que te deu para vires com essa conversa? Porque dizes isso?

- Porque podemos sempre amar como eu a amo.

- Ai sim? E como é que a amas?

- Olha, ainda ontem vinha no comboio e olhei para um homem que vinha a ler um daqueles jornais pobrezinhos. Um dos títulos era “Queimava a mulher”. Lembrei-me logo dela porque li o verbo como se fosse um adjectivo.

quarta-feira, junho 15, 2005

A Deus.



Todas estas palavras eram para ser outras. De despedida, menos propriamente. O problema é que tenho muita dificuldade em abandonar o que quer que seja.

As despedidas são mortes que não doem tanto. Moem e retorcem o fôlego, mas não o encerram. São exercícios de estilo cinematográfico, com lágrimas verdadeiras. Não serão estas as palavras já escritas por alguém cúmplice deste deserto?

Não é uma despedida porque não tenho competência para uma condigna.

O futuro é demasiado simples como palavra. O que virá a alguém pertence.

Guarda agora o olhar que nunca me deste. Correrei o mais que puder, até que sangre a angústia e me sorria a memória.

terça-feira, junho 14, 2005

Fruto da época.




Passo por sítios que deveriam ter sido meus. Lugares que podiam ainda guardar o descanso das tardes solarengas. Pátios recolhidos, figueiras tortas, azulejos sem cantos e dentro de modas passadas.

São de mais as vidas que vou deixar para trás.

Colecciono imponderáveis e possibilidades por abrir. Mas cada vez que vejo uma figueira amaino o passo. Por tantas vezes me ter ardido a boca em novo. Com figos verdes e pensamentos maduros.

quinta-feira, junho 09, 2005

Primeira impressão.




Guardo o rascunho do bilhete que te escrevi naquela tarde. Havia uma luta entre o tremor da mão direita e a certeza de que todas as letras te seriam familiares. Fiz dois desses. O primeiro não serviu, ou melhor, aproveitei-o para distrair os nervos do segundo.

O segundo ficou para ti, como ficam todas as palavras que aprendi. Em sítios onde sei que as encontrarás.

Fotografia: Imogen Cunningham - Magnolia Blossom - 1925

quarta-feira, junho 08, 2005

Podes esconder-te, mas não me podes impedir de amar.




A tua falta obriga-me a carregar a maior compreensão do mundo. A cada pulsação vejo-me obrigado a inventar uma má desculpa para não te ter. Passo assim as horas entretido sem querer mesmo.

“Ela está de férias mas não foi para lado nenhum. Ficou em casa a arrumar coisas que prometera há muito. Estende a roupa da noite quase até ao meio-dia e só se compõem porque pode aparecer alguém. Ou, de repente, irá comprar a fruta que assim desejou. Um dos discos antigos alegra-lhe os passos, mais alto do que o costume.”

Podia prolongar isto sem o mínimo esforço, em direcção à realidade. Mas prefiro saber de tudo devagar. Conheço-te melhor do que eu próprio imagino.

terça-feira, junho 07, 2005

”Engenho para divertimento, que põe em movimento, em torno de um eixo, veículos ou animais figurados em que se sentam ou escarrancham pessoas”



Se as manhãs trouxessem uma visita tua. Se os passos me perdessem na tua direcção. Se cada palavra que desperdiço fosse uma parte da história que nos falta.

Uma espera conformada como a de um corredor de morte. Uma reza, só mais uma antes de te ver desaparecer nos dias que nos colhem.

O Amor quando é passado a escrita torna-se muito mais grave. Cruzamo-nos e nada é o que parece. Tudo é natural, livros fecham-se, pássaros voam e os ruídos do costume indicam-me o caminho. A paisagem passa, repetida como se andássemos num carrossel com luzes de infância.

segunda-feira, junho 06, 2005

Abrilhantas-me.

O que sinto por ti leva-me a achar graça a todas as músicas românticas. As piores de todas servem para te imaginar a dançar, a brincar, numa destas festas de Verão.

As outras servem para te ver distorcida pela água salgada que me atravessa a saudade.