terça-feira, junho 21, 2005

Já te tinha dito que esta é a melhor história de Amor que já foi escrita?




Trocaste-me o sono por coisas engraçadas. Pequenos estalidos do algeroz, pássaros que fazem a sua vida de noite e estrelas que se aproximam do limite da janela.

O cortinado abana lento com a cor da Lua. O sossego espanta-se com o ladrar de um cão ao longe.

Às vezes fecho os olhos e finjo que estou a adormecer no quarto que me viu crescer. Lembro-me de não ter sono, mas pelo menos tinha a luz da cozinha acesa e barulhos de uma mãe que passava a ferro.

O descanso que me dava ouvir aquelas mãos a engomar-me a alma.

Hoje leio outras histórias de Amor. De preferência boas como as que ainda podemos sonhar.

segunda-feira, junho 20, 2005

Neste preciso momento,


onde estás?

Planície em chamas.




Este moinho fica de frente para a ermida de Alcamé. É um daqueles sítios onde vou de vez em quando para perceber a minha pequenez. Gosto de sentir que sou insignificante e isso faz-me feliz. Não mando em nada neste mundo. Só no Amor que sinto. Que é do tamanho do Sol que me acompanhou.

Gosto de visitar sítios grandes sem ninguém. Em horas que serviriam para te beijar sem vergonha ou calma.

sábado, junho 18, 2005

Sou mais feliz que a maior parte dos homens.

Sei quem é a mulher perfeita. A melhor de todas as que existiram na história. Esta é uma verdade tão grande que exacerba todos os olhares. Uma espécie de universo dentro deste.

Felizmente nunca acreditarás nesta verdade, tu, a própria.

sexta-feira, junho 17, 2005

A partir de hoje é que é.




Há alturas na vida em que tudo se desfaz. Momentos em que decisões novas e irrevogáveis se tomam. Tudo o que fui errado e tudo o que serei certo. Nada em mim será novamente redondo.

Só que amanhã será igual. São mesmo assim os dias que se revoltam à nossa volta.

Demoramos muito a perceber que só existem dois instantes irrepetíveis.

“Se um dia decidirem escrever a minha biografia, basta que assinalem a data em que nasci e a da minha morte. Todos os outros dias pertencem-me.”

Fernando Pessoa

quinta-feira, junho 16, 2005

Abrasador.




- Seremos sempre superiores a qualquer máquina.

- Olha agora. O que te deu para vires com essa conversa? Porque dizes isso?

- Porque podemos sempre amar como eu a amo.

- Ai sim? E como é que a amas?

- Olha, ainda ontem vinha no comboio e olhei para um homem que vinha a ler um daqueles jornais pobrezinhos. Um dos títulos era “Queimava a mulher”. Lembrei-me logo dela porque li o verbo como se fosse um adjectivo.

quarta-feira, junho 15, 2005

A Deus.



Todas estas palavras eram para ser outras. De despedida, menos propriamente. O problema é que tenho muita dificuldade em abandonar o que quer que seja.

As despedidas são mortes que não doem tanto. Moem e retorcem o fôlego, mas não o encerram. São exercícios de estilo cinematográfico, com lágrimas verdadeiras. Não serão estas as palavras já escritas por alguém cúmplice deste deserto?

Não é uma despedida porque não tenho competência para uma condigna.

O futuro é demasiado simples como palavra. O que virá a alguém pertence.

Guarda agora o olhar que nunca me deste. Correrei o mais que puder, até que sangre a angústia e me sorria a memória.

terça-feira, junho 14, 2005

Fruto da época.




Passo por sítios que deveriam ter sido meus. Lugares que podiam ainda guardar o descanso das tardes solarengas. Pátios recolhidos, figueiras tortas, azulejos sem cantos e dentro de modas passadas.

São de mais as vidas que vou deixar para trás.

Colecciono imponderáveis e possibilidades por abrir. Mas cada vez que vejo uma figueira amaino o passo. Por tantas vezes me ter ardido a boca em novo. Com figos verdes e pensamentos maduros.

quinta-feira, junho 09, 2005

Primeira impressão.




Guardo o rascunho do bilhete que te escrevi naquela tarde. Havia uma luta entre o tremor da mão direita e a certeza de que todas as letras te seriam familiares. Fiz dois desses. O primeiro não serviu, ou melhor, aproveitei-o para distrair os nervos do segundo.

O segundo ficou para ti, como ficam todas as palavras que aprendi. Em sítios onde sei que as encontrarás.

Fotografia: Imogen Cunningham - Magnolia Blossom - 1925

quarta-feira, junho 08, 2005

Podes esconder-te, mas não me podes impedir de amar.




A tua falta obriga-me a carregar a maior compreensão do mundo. A cada pulsação vejo-me obrigado a inventar uma má desculpa para não te ter. Passo assim as horas entretido sem querer mesmo.

“Ela está de férias mas não foi para lado nenhum. Ficou em casa a arrumar coisas que prometera há muito. Estende a roupa da noite quase até ao meio-dia e só se compõem porque pode aparecer alguém. Ou, de repente, irá comprar a fruta que assim desejou. Um dos discos antigos alegra-lhe os passos, mais alto do que o costume.”

Podia prolongar isto sem o mínimo esforço, em direcção à realidade. Mas prefiro saber de tudo devagar. Conheço-te melhor do que eu próprio imagino.

terça-feira, junho 07, 2005

”Engenho para divertimento, que põe em movimento, em torno de um eixo, veículos ou animais figurados em que se sentam ou escarrancham pessoas”



Se as manhãs trouxessem uma visita tua. Se os passos me perdessem na tua direcção. Se cada palavra que desperdiço fosse uma parte da história que nos falta.

Uma espera conformada como a de um corredor de morte. Uma reza, só mais uma antes de te ver desaparecer nos dias que nos colhem.

O Amor quando é passado a escrita torna-se muito mais grave. Cruzamo-nos e nada é o que parece. Tudo é natural, livros fecham-se, pássaros voam e os ruídos do costume indicam-me o caminho. A paisagem passa, repetida como se andássemos num carrossel com luzes de infância.

segunda-feira, junho 06, 2005

Abrilhantas-me.

O que sinto por ti leva-me a achar graça a todas as músicas românticas. As piores de todas servem para te imaginar a dançar, a brincar, numa destas festas de Verão.

As outras servem para te ver distorcida pela água salgada que me atravessa a saudade.

Quantos destes dias se pode ter na vida?




O meu irmão casou este Sábado. Foi bom e inesquecível. Foi bom gastar assim um dos dias mais importantes das nossas vidas. E este já ninguém nos tira.

Se o tivesse que classificar diria que é um irmão único. Como aqueles filhos incumbidos de carregar todos os ovos de uma casa.

sexta-feira, junho 03, 2005

Espero, como se os dias fossem rascunhos.




As palavras que por aqui andam continuam a ser tuas. Não perguntes se é possível gostar assim senão obrigas-me a dar a pior de todas as respostas: sim.

Não é só quando se é novo, inconsciente ou desgraçado. É possível não te falar, beijar ou conhecer e mesmo assim ter a corrosão por cúmplice nas horas sós.

Gosto de ficar assim, de frente para tua falta. Desculpa a ousadia de tudo o que penso sem dizer.

Ingres - Francesca da Rimini e Paolo Malatesta, 1819 (óleo sobre tela)

quinta-feira, junho 02, 2005

Pior que não te ver,


É saber que não te verei de certeza. É uma espécie de todas as esperanças a morrer juntas, desencantadas por uma música qualquer.

Amanhã de manhã começa tudo outra vez.

Lugar marcado.




Estive tão perto que quase ouvi o pulsar do teu peito. Consegui ver a manhã iluminada nos teus dedos, contei todas as cores de todas as sombras dos teus braços, cada movimento, cada prega, a encher-me de vazios cada vez maiores. Bastava-me esticar a mão para fechar os olhos para sempre.

De repente, passaste a mão pelos cabelos que ainda me faltavam contar. O ar que te cercava de vida sufocou-me.

Fotografia: Getty

quarta-feira, junho 01, 2005

A timidez como forma de egoísmo.


Quando se é tímido, todas as desculpas são óptimos farrapos. Quando se é tímido todos os remorsos são mais pesados. Só a felicidade, o aperto no peito e a falta de jeito são iguais.

Se soubesses as vezes que hoje disse amo-te, sem nunca teres ouvido.

Olha, flores proibidas, por colher.




São quantas as histórias que poderíamos viver? Que praias, quartos, filmes, livros e gargalhadas estariam à nossa espera?

Gosto de pensar em todos os sítios que nunca visitarei como o destino que vamos deitando fora.

Estou certo que numa dessas praças encontrava o entardecer, o repuxo e o pauzinho com que desenharia o meu nome no teu.

Fotografia: Cartier Bresson

terça-feira, maio 31, 2005

Viste-a?


- Sim, vinha linda como de costume. Com um casaco branco com risquinhas cor de rosa.

- Olhou para ti?

- Não. Ou melhor, olhou de certeza, para garantir que não voltava a olhar.

- E tu, olhaste?

- Claro e morri mais um bocado. Também reparei no vinco lindíssimo que aparece na testa quando se impressiona com o que lê.

Tudo se despede de mim.




Podemos despedirmo-nos do que nunca nos pertenceu? Podemos perder a esperança de voltar a ser o que nunca chegámos?

Dou comigo demasiadas vezes a perguntar o que és realmente para mim. Tu e o resto que testemunha os meus passos e angústias suaves. Daquelas que já estão no bolso quando visto o casaco para sair. Sou eu próprio vezes demais.

Nunca me despedirei de ti. Não quero viver a pensar que perdi a única coisa que não podia.

Fotografia: Herb Ritts

segunda-feira, maio 30, 2005

Deus está nos pormenores.


“One day you’ll see, details will make all the diference”

Sem perceber se é a realidade ou não, penso muitas vezes nesta ideia do Fernando Pessoa: “tudo o que está à volta do Amor é muito mais bonito do que o próprio Amor”.

Tivesses tu a coragem para falar agora ou calar-me para sempre.




- E hoje? Ela vai dizer-te alguma coisa?

- Como queres que eu saiba?

- Como queres que eu te pergunte?

- Como queres que eu viva?

- Segunda-feira, não é verdade? Estás chateado?

- Agora começo a ficar.

- Com tantas perguntas?

- Já estou.

Fotografia: Helmut Newton.

Agora é de vez:


O novo endereço de mail do Estranho Amor é: dr.estranhoamor@gmail.com

O “dr.” não tem nada a ver com estudos ou pedantaria, mas sim com o nome original da obra que inspirou o deste blog.

quinta-feira, maio 26, 2005

Assim como assim.




- Então e ela, mesmo depois de tudo o que já lhe mostraste, ainda não te disse nada?

- Nada. Sabes como é, as mulheres demasiado interessantes são assim. Inseguras e com a certeza de que se um homem está demasiado apaixonado é porque é mau sinal.

- Nunca tinha pensado nisso dessa forma. És capaz de ter razão, se calhar dá-lhe vontade de rir.

- Se calhar.

- Mas é injusto.

- Mas é assim.

Fotografia: Helmut Newton.

É só escrever.


O Estranho Amor tem um novo endereço de e-mail: estranho.amor@hotmail.com

Na altura era este o endereço, mas actualmente é: dr.estranhoamor@gmail.com, Janeiro de 2013.

quarta-feira, maio 25, 2005

Foges de quê?


De palavras, de sonhos, de delírios? Porquê? Nunca foste amada como mereces? Tens que ir viver nos livros as partes mais importantes doutros romances? Daqueles que se internam noutras bocas?

A vida que me ultra passa.




Percorremos o mesmo caminho como estranhos. A horas desacertadas, sozinhos como os últimos pássaros de Outono. De certeza que pisamos as mesmas ervas e algumas das mesmas pedras. Era capaz de dizer que, às vezes, ainda vês o resto da nuvem que me tapou o Sol e o consolo.

Passam assim os dias a fugir sem saber de quê. Espreitas curiosa uma alma que se atropela e que nem conversa sabe meter. Não te preocupes, eu já aprendi a esperar.

Pelo menos conduz devagar se faz favor. O teu carro e o meu desespero.

Fotografia: Helmut Newton.

Magnitude.




Lembro-te que para além das flores, dos sorrisos, das lágrimas, dos poemas e dos sonhos existem os nossos corpos. Não perguntes se estão antes ou depois, digo-te que os prefiro juntos. Às vezes até penso que estão para além de nós próprios.

E se um dia te conhecer, serão eles a fazer as honras da loucura. Sem pedir licença, no frenesim que nos leva da realidade. Serão cavalos selvagens ou caldeiras descontroladas. Descarrilados e torcidos com as forças que dizimam.

Fotografia: Helmut Newton.

segunda-feira, maio 23, 2005

Não sei se eras tu,


mas se eras, então cortaste o cabelo, com a mesma tesoura que me corta agora a respiração.

Ou então não, e são só os dias e o juízo que me parecem cada vez mais curtos.

Nuance.




Vim ver-te. Pelo meio do fumo das chaminés, da calçada encardida, do Sol que se vai demasiado cedo, de algumas nuvens cinzas e da antipatia usada pela idade.

Ainda assim, arredo essa cortina de demasiada realidade e vasculho o Tejo, o reflexo do teu cabelo na minha boca e o sopro do vento nas canas.

De todos, escolho o teu cabelo na minha boca, por causa dos abraços demasiado apertados. Lembro-o com as mesmas saudades que me vão extinguindo.