terça-feira, maio 03, 2005
Post nº 400.
Serão estas 400 histórias importantes? Estarei eu melhor ou mais leve por as ter aqui deixado? Não sei. Mas 400 é um número grande de mais para o que eu julguei ser capaz de escrever. Siga. Para a frente é que é Lisboa e a partir daqui é sempre a descer.
sexta-feira, abril 29, 2005
É amar, é amar. Quem não tem Amor não paga nada.

Gosto de procurar sonhos como se os meus não chegassem. Sou capaz de fazer uma história boa e uma má de todos os estranhos que cruzo como se eles não as tivessem já.
Passo por um divertimento de feira abandonado e paro. Há foguetões com luzes, uma por cada gargalhada de criança apanhada ao céu. Cabelos selvagens, farturas e carabinas de plástico. Poeira nos sapatos e tiros de pólvora húmida pelas lágrimas do balão largado.
Nunca vi tantos sonhos juntos. Por ali, ao Deus dará, desprezados e abandonados à sorte dos primeiros anos. Esquecidos e poucas vezes reclamados. Encontrei alguns meus. Uns voltaram comigo outros disseram que já não valia a pena.
quinta-feira, abril 28, 2005
A paixão fais mon jour:
Parece-nos um oásis, não pelo que é mas porque achamos que tudo o resto é um deserto.
quarta-feira, abril 27, 2005
Passatempo: brincar aos poemas.

Ou é a menos
Ou se tem
Ou se mata
O tempo é assim
Às vezes está bom
Outras escapa
A tua falta é assim
Oh! Se mata.
terça-feira, abril 26, 2005
sexta-feira, abril 22, 2005
Alma gémea, Fais mon jour.

Este disco dos Cocteau Twins é a banda sonora das saudades que teimas em não matar. É uma pena de Cupido que posou no jardim onde te beijei pela primeira vez. É agora a soma gigante das palavras que não têm coragem de sair. Talvez no meu sorriso tu percebas que nunca ninguém foi mais capaz de te amar. Morde-me os pulsos e a ruína, salva-me desta selva de inércia. Mostra-me o caminho do abismo.
quinta-feira, abril 21, 2005
Ainda o banho, a manhã e o corpo.

Imagino-te na água, com as mãos trocadas, nua a sorrir. Com a torrente que te salpica os lábios. Abres a boca ligeiramente para sentir na língua as gotas que têm a sorte de aí entrar. Atrasas o fecho da torneira só para sentir mais um pouco do calor que deveria ser eu a dar.
As tuas mãos. Essas que me matam de ciúme. Tocam-te, lavam-te, passam, deslizam para te desenhar o corpo. Brincam às escondidas e brincam às provocações como se fossem as minhas.
Foto: Getty Pictures
quarta-feira, abril 20, 2005
Imersão.

Nada se compara a uma manhã em que nos preparamos para amar. Destapamo-nos da noite com os sonhos a cair para junto dos chinelos que não têm tempo de fugir. Há um banho e uma música na nossa cabeça que acompanha as mãos no corpo que se quer tocado por outras. Há água que escorre mandriona, aromas e vapor que dá para escrever coisas no espelho.
Esta roupa só me serve até chegar ao pé de ti. Quanto mais bonita, mais depressa desaparece. São os teus beijos que me voltam a embaciar o coração, a tua boca que me lava e afoga. Canto contigo o que só aqui tenho coragem.
terça-feira, abril 19, 2005
Até amanhã.

Descubro no meio das letras de uma história a palavra procrastinação. Apresentei-me e o dicionário contou-me o seu significado: acto de remeter uma decisão para o dia seguinte.
Afinal já a conhecia. Não sabia o seu nome, mas lembrei-me que todos os dias nos cruzamos. Bonito nome para alguém tão intimo.
Bonito nome para alguém que se despede com o amor por acabar.
segunda-feira, abril 18, 2005
“Estou a começar a pagar. Mais vale começar cedo, para acabar depressa.”

Ruan Rulfo é um escritor mexicano cuja obra completa se resume a dois livros: “Pedro Páramo” e “A planície em chamas”. Com estes dois livros ganhou o estatuto de um dos maiores nomes da história da literatura. Também ganhou os prémios Cervantes e Príncipe das Astúrias.
É por causa de pessoas e livros destes que eu e este blog somos como somos.
quinta-feira, abril 14, 2005
Ao ocaso.

- Gosto do sol do fim dos dias de Primavera.
- Também eu. E nós? Como é que ficamos?
- Agora é tarde.
- Olha aqui que giro: é o fio que me prendia a alma ao coração. Soltou-se.
quarta-feira, abril 13, 2005
Madame Butterfly.

Fotografei esta borboleta sem reparar nas suas asas carcomidas. Só hoje, quando abri a fotografia para a colocar aqui, é que reparei no seu estado. Escondeu a sua idade, condição e, quem sabe, dor. Batia os restos de vida como se nada fosse.
Pensava que éramos só nós que conseguíamos disfarçar a vida com comportamentos condicionados. Achava que eram só as nossas asas que se iam esboroando com voos mal ou bem calculados.
Afinal não.
segunda-feira, abril 11, 2005
No meu carro.

Vimos as paisagens passar. Sentados, de vidros abertos ou olhos fechados. Uma música e uma noite que nunca vinham tarde. Perdidos ou atrasados, a rir, com o sol nos braços. Tínhamos um destino mas não sabíamos que era este.
Levei-te tantas flores onde estas se sentaram hoje. Não podias querer todas.
sexta-feira, abril 08, 2005
Amor incrível.

“Podes saber muito acerca de uma mulher pelo que traz na mala, mas de certeza que não é essa a tua intenção” – num diálogo dos “Incríveis”, filme de animação da Pixar.
As palavras e as imagens do Amor são assim: as melhores chegam-nos muitas vezes dos sítios donde menos esperamos.
quinta-feira, abril 07, 2005
É da tua falta. Só pode ser da tua falta.

Há coisas dentro de mim que descansam. Fantasmas que desistiram de olhar para a monotonia que entra. Arquivos mortos e pó assentado. Armaduras incompletas e notícias velhas a forrar caixotes.
Guardo coisas que pensei um dia virem a fazer falta. Já nem me lembrava desse mal passado.
terça-feira, abril 05, 2005
Sorte: fado; destino; dita; fortuna; ventura; quinhão; acaso; riso; género; espécie; qualidade; maneira; forma; sentimento; lote de fazendas.

Sonho muitas vezes com o passado, com pessoas que já não tenho e com palavras que só agora me chegam. Volto a beijar, a rir e a abraçar paisagens que não cabem em mim.
Só me chega o importante. Os pássaros, os comboios, as cigarras e o choro dos bebés não aparecem. O cheiro a terra e o frio dos finais de tarde não passam.
Ainda assim vale a pena. Viver mais do que foi virtuoso. Falar com quem amei com muitas verdades. Abrir portas e janelas, arejar as mantas que nos amaram e chorar com as anedotas que me fazem os dias reais.
Não sei o que tenho de maior: o que guardo ou o que aguardo.
segunda-feira, abril 04, 2005
A partir de hoje, uma série: Fais mon jour*

A versão poética: “Haja o que houver, há de sempre haver um homem para uma mulher.”
A versão da minha avó: “Não existem panelas sem tampa.”
*Tradução selvagem do inglês “Make my day”. Gosto da expressão mas prefiro a língua francesa, aliás, eu prefiro a França à Inglaterra. Para além de serem latinos, os franceses têm mais bom gosto.
sexta-feira, abril 01, 2005
Provas de contacto.

- Se a tua casa começasse a arder, o que salvavas primeiro?
- As caixas de fotografias. É lá que estou. Mais do que aqui, tantas vezes.
- É lá que eu quero ficar também.
quinta-feira, março 31, 2005
Segundos Socorros.

É tortuoso o nosso caminho. São ramos, veias e ruas. Vejo-o nas copas da vida, através da tua pele, à flor dos pulsos ou do peito nu. Por lá passam os teus e os meus dias.
quarta-feira, março 30, 2005
Fim.

Conhecia uma pessoa que se suicidou ontem.
A vida nunca é como queremos. A morte, por vezes, é.
terça-feira, março 29, 2005
No dia que soube a Homem e a Mulher.

Cada vez que a minha mãe me limpava o quarto desapareciam-me sempre coisas sem as quais não podia viver. O esmero era tal que vi-me obrigado a recomeçar a minha própria vida do zero várias vezes. A adolescência espalhada por caixas e gavetas sem fundo era presa fácil dos seus sorrisos. Em breve ia perder-me. Penso que deve ter guardado algum do valioso lixo que fingia deitar fora.
O tempo faz o mesmo comigo ainda hoje. Tenta recolher peças perdidas e pratas de chocolate espalmadas em livros que já não são para a minha idade. Esforça-se por desviar lembranças que não conhece. Não sabe que, para mim, algumas são sólidas como as âncoras dos maiores navios. Prendem-me ao fundo das lágrimas de alegria que chorei.
Como as que caíram numa quinta com pavões. Na minha terra. No dia em que ganhei o Amor e perdi a inocência. Na noite que não dormi. Na vida que julguei não estar reservada para mim. Num banco igual ao que me levará até ti no fim dos dias grandes.
segunda-feira, março 28, 2005
Só não vê quem não quer.

Rio-me da fama que alguns têm, dos ídolos e da devoção que lhes é rendida. Rio-me das lendas das pessoas mas gosto das dos animais. Os pelicanos, por exemplo, já foram vistos por pescadores a amarem as crias até à morte.
Dizem que, em desespero, cravam o bico no próprio peito e que alimentam os descendentes com as suas entranhas.
Também há quem diga que isto é mentira e que o sangue que lhes tinge as penas é dos peixes carregados no bico.
Apesar da explicação, acredito na lenda. Prefiro um peito desfeito do que uma verdade esfarrapada.
quarta-feira, março 23, 2005
Mais olhos que barriga.

Mil vezes queria ser criança e não crescer. Mil vezes queria aprender a andar direito com os meus próprios filhos. Que me mordam os braços e que desatemos a rir passados dois minutos. Que saudades das férias e dos cardos.
Quero chorar pelo motivo mínimo e pasmar com um moinho de água. Rodar até cair. Esfolar os joelhos e beber leite por uma palhinha.
Isto é pedir muito mais do que o que consigo aguentar. Pelo menos isto.
segunda-feira, março 21, 2005
Lembras-te?

É possível amar aos poucos, estar apaixonado durante muito mais do que o razoável. Consegue-se ir garimpando cada sorriso, cada sabor e cada enquadramento em que te mostras.
Consigo distinguir cada pulsação, cada sopro e cada ferroada do teu corpo. Sou capaz de desmanchar-te no escuro, sentir-te a qualquer distância, ouvir-te de olhos trancados e achar que adivinho que roupa trazes por baixo dessa.
- Lembras-te de tudo o que ouviste falar acerca do Amor até hoje?
- Sim?
- É tudo verdade.
Tal como um passado inexperiente.

Ao contrário do que dizem que devia, continuo a revisitar sítios onde passei grandes momentos. Estive na Rua do Cais em Alhandra onde aprendi com o meu avô todas as importâncias do Tejo. Foi lá que ele, eu e o seu querido filho fomos felizes. Demasiado, diria eu agora.
A casa que viu o Sol a entrar com a mesma alegria com que eu sonhava está agora morta. Reparei na maçaneta da porta e nas esfoladelas do branco que ainda sabia de cor. Também vi as barras de ferro que fixavam a tábua que parava o princípio das marés vivas.
Arranquei com o Tejo todo a saltar dos olhos. A minha vida dali acabou há muitos anos. Como uma cadela inexperiente, tanto quero os filhos do passado que acabo por matá-los.
quinta-feira, março 17, 2005
Um dia, tudo o que a minha vista alcança será teu.

Fascinam-me as paisagens e os horizontes. Gosto de espreitar o mundo, de ver as chaminés, o rio, o mercado, as estradas e a falta de limites. Penso em todas as vidas que o meu olhar abraça.
Quantas serão? Quantos pais estão a depositar o futuro ao lado no berço? Quantos beijos vão de uma ponta a outra do que a minha vista alcança? Sei que estão pessoas a fazer Amor numa das mil janelas acesas. Maridos a falhar as horas de chegada e gritos de mãe para a hora do jantar.
E tu? Podias estar num dos carros que passam demasiado longe. Ou podes estar a olhar para a Lua neste preciso instante. Ainda se notam as nuvens e alguns dos desenhos que só eu consigo ver.
quarta-feira, março 16, 2005
Olhai o delírio do mercado.

Uma vez ouvi uma cigana a rogar a seguinte praga:
“Devias apanhar uma febre tão alta que te havia de derreter a fivela do cinto”
Não cheguei a saber se o freguês falhado passou a utente de um qualquer banco de hospital. Nem sei se algum metal incandescente lhe escorreu pelo corpo.
Penso se não terei sido salpicado por aquele desejo de flagelo. Por simpatia, já que por ali andava ao Deus dará.
É que basta ver-te para as diferenças incisivas de temperatura e as cicatrizes sem nome me internarem.
terça-feira, março 15, 2005
A falta que me embala.

Há uma paz que corrói, aquela que me faz ouvir a passagem do próprio sangue. Há um sossego que se esconde e um desfile de imagens que fazem rir o escuro. Tenho vergonha de não me obedecerem as mãos quando passas. Se ao menos a tua boca me ouvisse.
O tempo roda à minha volta sem passar.
Tenho esta perna dormente. São as saudades que me apertam com o peso do deserto que aqui brinca.
segunda-feira, março 14, 2005
É por estas e nunca por outras.

Gosto de imponderáveis, de tudo o que quebra, rasga, nasce, ama, ensombra e foge sem pagar. Acidentes de química, sorrisos gratuitos e malhas puxadas ao calçares as meias.
Flores silvestres, que não pediram para nascer aqui, nem ali. De várias cores, semeadas pelo sopro de muitos corações, aproveitadas para temperar e para arranjos.
Nuvens com a forma de saudades a dissipar e pássaros que calharam voar longe de mim.
sexta-feira, março 11, 2005
- Sobremesa? - Dois suspiros, por favor.

Numa sala esquisita, com música de um mundo desafinado, quase vazia, dois ou três aromas estrangeiros e um empregado distraído:
- Trouxeste a saia?
- Claro, e tu puseste o perfume?
- Sim.
- Óptimo. Não sei se te beije ou se te bata por agora achar que tudo o que vivi até hoje foi medíocre.
Subscrever:
Mensagens (Atom)