Não somos nós que fazemos Amor. É o Amor que nos faz.
Hoje apeteceu-me escrever outra vez.
quarta-feira, março 09, 2005
O Amor é a língua universal.
É tão inquestionável que penso até ser a única verdade indubitável que escrevi até hoje. Sinto-me orgulhoso perante esta junção de letras.
Não que tenha sido eu a lembrar-me deste lugar incomum, fico é a olhar para o sujeito como quem olha para a mão de um carrasco. Fico com um sabor estranho na boca. E no peito.
terça-feira, março 08, 2005
“Amo-te”

- Então? Deixas-me assim para o fim-de-semana? Só com esta palavra, sem outra explicação ou beijo arrebatado?
- Tem que ser. Guarda-a bem. Olha que está habituada a andar sempre comigo.
domingo, março 06, 2005
Basta-me olhar pela janela para ver logo outro continente.

Estou em casa a fazer a cama, coisa insignificante mas das mais importantes, e ocorre-me o gosto que tenho em ficar em casa. Nunca poderia dar um bom drogado ou alcoólico por culpa própria: prefiro a minha realidade a outra qualquer.
Sempre que quero fugir é para aqui, para ao pé dos meus cheiros, da barba por fazer e da luz que entra pelo pátio. Fumei durante 10 anos e foi uma desgraça. Nunca consegui fumar mais do que 10 ou 15 cigarros por dia. Estou condenado a aturar-me para o resto da vida tal como sou. E gosto. Se calhar é a minha realidade que é demasiado irreal.
sexta-feira, março 04, 2005
Ferimentos ligeiros.
- Não trouxeste a saia que tínhamos combinado.
- Não. Não está tempo para isso. Parece que estás a desenvolver uma espécie de fetiche com essa saia.
- Cuidado. As palavras saia e fetiche na tua boca e usadas na mesma frase podem ter efeitos devastadores.
- Ficas inconsciente?
- Inconsciente não. Susceptível.
- Não. Não está tempo para isso. Parece que estás a desenvolver uma espécie de fetiche com essa saia.
- Cuidado. As palavras saia e fetiche na tua boca e usadas na mesma frase podem ter efeitos devastadores.
- Ficas inconsciente?
- Inconsciente não. Susceptível.
quinta-feira, março 03, 2005
Cá vamos cantando e rindo, mas pouco.

Depois de rodar pelo tempo, a opinião volta-me uma e outra vez sem se perder: nascemos para amar e para mais nada. Apenas ocupamos o tempo com ninharias e ofícios.
As distracções são tantas que a maior parte das pessoas esquece isto aos oito ou menos. Parece que queremos fugir uns dos outros, dos abraços e das atenções. Alimentam-se distâncias, privacidades que se chamam solidão e preza-se o espaço individual de cada um. No fundo respeita-se a tristeza e a falta de coragem para o sorriso desconhecido.
Abraçamos pouco, beijamos pouco e choramos pouco.
Tenho um amigo que de vez em quando levanta-se, dirige-se a uma mulher bonita e diz qualquer coisa como “Obrigado por ter vindo neste comboio e pelo tempo que passei a olhar para si. É muito bonita e o meu dia começou melhor por sua causa”. Mas isto é só um amigo que eu tenho. Não conheço mais nenhum ajuizado que faça isto.
Não me admiram as casas de velhas onde os relógios e a vida pararam na viuvez.
quarta-feira, março 02, 2005
No peito dos desafinados também bate um coração.

Esta é a minha música. Imagino que a nossa cabeça se arrume de forma semelhante. Pelo menos, se campasse, era assim que se dispunha. Poemas, sons, letras e tardes que não rimam comigo. Tudo em caixas transparentes, alinhadas por ordem nenhuma ou por cores, que, para o caso, é a mesma coisa. Algumas esquecidas dentro de ti, outras perdidas. Para mim é claro que nunca devolverás o silêncio que te emprestei.
terça-feira, março 01, 2005
Eterno retorno.

O que não tem retorno incomoda-me. Seja uma decisão, um sonho ou um prato partido.
Aflige-me a ausência que marca com a dor de uma rês ferrada. Uma cadeira sem dono, um telefone que não vale a pena tocar ou uma febre que rouba uma voz para sempre.
Uma saudade, se pode ser morta, não é uma saudade. Se não pode, também não é.
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
No meu tempo é que era.
Vem-me à cabeça a emoção que senti quando vi a minha primeira bicicleta. Lembro-me também de um balão que soltei sem querer numa feira de Vila Franca e de vê-lo subir tão alto que quase tocou a minha angústia. Recordo-me, como se fosse ontem a primeira vez que saí à noite.
Não preciso de me lembrar que talvez não volte a sentir emoções como as que vivi, quando tudo era uma questão de tudo ou nada.
Não preciso de me lembrar que talvez não volte a sentir emoções como as que vivi, quando tudo era uma questão de tudo ou nada.
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Desculpa-me.

O que sei não ser capaz de dizer. Ainda assim, perdoa-me a tentativa, a ousadia, a leveza e o descaramento. Absolve-me a imprudência, a leviandade e, se calhar, até a baixeza.
Nunca vou esquecer aquela nossa noite em que nos beijámos. Tudo se resumiu às bocas. Foi lá que tudo começou e foi lá que acabei por sentir, no meio do delírio, o mundo parar quando as tuas pernas finalmente cederam. Os teus joelhos estreitaram-me a respiração e a alma. O teu corpo e o resto da minha vida abraçaram-me ali e nunca mais.
Um dia vou agradecer-te por teres gasto de um trago toda a alegria que me foi reservada à nascença.
Fotografia: Time Warner
terça-feira, fevereiro 22, 2005
Vago.

A idade trouxe-me muitas coisas boas e uma borracha que vai apagando os porquês. Começa a fazer sentido amar-te porque sim e perder-te porque sim também.
Os dias são cordelinhos de civilização que me mantêm desocupado de ti.
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
Até amanhã, quer nós queiramos, quer não.
Levanto-me mais cedo e descubro que a luz do princípio dos dias é igual à do final. As sombras e o amarelo tépido que tudo interna espantam a noite que passou. Os pássaros e as vozes dos mercados apregoam a manhã.
Outros pássaros e os silêncios do cansaço vendem a tarde pela melhor oferta.
Assim se repete, sempre e sempre da mesma forma, excepto para quem perde por atraso ou falta de comparência.
Outros pássaros e os silêncios do cansaço vendem a tarde pela melhor oferta.
Assim se repete, sempre e sempre da mesma forma, excepto para quem perde por atraso ou falta de comparência.
domingo, fevereiro 20, 2005
sexta-feira, fevereiro 18, 2005
Nós e um destes dias.

A ganância de te provar mistura-se com a leveza das flores da tua roupa. Arranco-me da banalidade imbuído do teu cheiro. O que resta cá dentro é uma azáfama selvagem. Hienas lutam entre si, coveiras de uma leoa cansada. As suas gargalhadas ecoam em cada poro baralhado e dado de novo. As mãos sufocam-se no circo e na perfeição.
Há sangue a levantar fervura e bocas a morder. Há olhos fechados em pequenas mortes e ventres que não se cansam.
quinta-feira, fevereiro 17, 2005
Simples como tudo.

Não quero falar dos outros, não quero andar na moda nem comida japonesa. Dispenso um carro maior ou impressionar os vizinhos, não quero ser rico nem mais informação do que a que preciso, jamais irei para uma praia pior só porque está vazia.
As únicas coisas que nunca me chegam são: os livros, o céu, o Amor e a presença das pessoas de quem gosto.
Quero exactamente o que tenho.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
Sorrir.
verbo intransitivo
· rir um pouco;
· rir com moderação, sem fazer ruído;
· apresentar aspecto agradável;
· agradar;
· aprazer;
· prometer;
verbo transitivoexprimir, sorrindo;
(Do lat. subridére, «id.»)
Só quem já foi iluminado pelo teu é que sabe o que é de verdade. Uma constelação que me embala pelos sonhos abaixo, imparável, como os gritos que empurram o triciclo para dentro da infância afortunada.
· rir um pouco;
· rir com moderação, sem fazer ruído;
· apresentar aspecto agradável;
· agradar;
· aprazer;
· prometer;
verbo transitivoexprimir, sorrindo;
(Do lat. subridére, «id.»)
Só quem já foi iluminado pelo teu é que sabe o que é de verdade. Uma constelação que me embala pelos sonhos abaixo, imparável, como os gritos que empurram o triciclo para dentro da infância afortunada.
terça-feira, fevereiro 15, 2005
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
Amor de fragmentação.

Os dias de uns são as noites de outros. Os Amores doutros são as ruínas de terceiros. As lágrimas que correm agora serão amanhadas por breves sorrisos depois.
Mais do que corações, há vidas que se estilhaçam para dar lugar a rebentos que nascem em alguém mais verde. Os desertos são os mesmos, apenas mudam de peito.
Lembro-me hoje de todos os destroços nos olhos de quem ouve um Adeus. Lembro-me hoje de todos os que abriram alçapões de bombardeiros pesados sobre o queixo trémulo de quem não pode fugir.
A separação, essa nobre instituição que une duas pessoas para sempre.
Feliz dia para todos os ex-namorados.
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Águas Paradas.

O Amor que tenho não cabe aqui. As palavras prontas não saem. O delírio selvagem das nossas bocas não vai nem vem. O tempo irrequieto escalda-me nas mãos.
Estou parado, como o Inverno. À espera do vento, como uma bandeira lavada, passada e guardada na gaveta do imediato.
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
E se fosse hoje outro dia?

Daqueles em que sei que nos vamos encontrar? Daqueles em que até as músicas românticas-lamechas-estilo-Bryan-Ferry me soam melhores e em que a roupa condiz melhor com os olhos?
E se fosse outro? Outro sonho, ou outro homem, ou o teu? E se te telefonasse e dissesse nada mais do que o que sinto? E se fossemos passear com as decisões acertadas?
E se fizéssemos Amor? O que seria nosso?
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Canções de Amor e devoção.

Apesar de não ser a especialidade da casa, cá vai uma humilde opinião. O disco California de Perry Blake é para ser ouvido com o coração. Com o nosso e, com sorte, com outro.
Guardo imagens que nem a terra há de comer.
As vezes que te vejo nunca serão suficientes. Tento, em cada uma, demorar-me o mais possível. Olho sem parar para o que vou perder, ou nunca ganhar.
Faço um esforço para pestanejar menos vezes. Ardem-me os olhos e o coração. Baralho as lágrimas de desgosto com as da insistência.
Faço um esforço para pestanejar menos vezes. Ardem-me os olhos e o coração. Baralho as lágrimas de desgosto com as da insistência.
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Enresinado.

Um tronco de pinheiro com uma ferida. Um espelho da alma aqui mesmo. Coisas que correm: seiva, sangue ou lágrimas, tantas faz. O Amor plantado num golpe de azar que nos derruba os sonhos.
Vivemos no conforto dos ferimentos que nos ajudam. Precisamos da navalha que corta as mordeduras envenenadas, da saudade que nos punça o vazio das horas sós, da agulha que nos extrai os espinhos e as falhas.
sexta-feira, fevereiro 04, 2005
Desejo, saudade e riso.
Descubro, em muitas palavras que troco, a moda, e o grau de convicção com que esta se veste. Quando estou sozinho lembro-me de que em termos de confiança e indumentária nada se compara à forma natural com que vestes as meias.
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
É uma frustração do tamanho de um orfanato.

Tenho que fingir que a tua boca não foi assim tão dulcíssima e que afinal a tua respiração não era ciclónica. Tenho que me convencer que o que carrego no peito não são brasas. Acreditar que a tua língua já não me encerra nos sonhos.
E acima de tudo tenho que me amarrar, cada vez que me lembro que também tu derivas numa vida que julgas ser a certa.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
segunda-feira, janeiro 31, 2005
A loja do Amor sem meias medidas

Ontem fui o homem mais feliz do mundo. O irmão mais velho do sonho. O papel de rebuçado de Domingo. Ajudei a vaidade suprema, aquela que inunda a Noiva a sair de casa.
Fui com o meu irmão mais novo comprar o seu fato de Noivo. Provas, conselhos de quem sabe e pregas de sorrisos. Camisas de punho duplo, cintos que o sapateiro vai afinar, bainhas ao milímetro e crianças a correr à nossa volta. Crianças que não pararam de suar e de atirar pedras para o mar da nossa infância. Salpicos nos olhos e gargalhadas de sal.
Se alguma vez fui feliz, foi ontem. Se houve uma altura em que o sangue sincero nos deitou os joelhos abaixo numa corrida de bicicletas, foi ontem também.
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