quinta-feira, fevereiro 10, 2005

E se fosse hoje outro dia?



Daqueles em que sei que nos vamos encontrar? Daqueles em que até as músicas românticas-lamechas-estilo-Bryan-Ferry me soam melhores e em que a roupa condiz melhor com os olhos?

E se fosse outro? Outro sonho, ou outro homem, ou o teu? E se te telefonasse e dissesse nada mais do que o que sinto? E se fossemos passear com as decisões acertadas?

E se fizéssemos Amor? O que seria nosso?

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Canções de Amor e devoção.



Apesar de não ser a especialidade da casa, cá vai uma humilde opinião. O disco California de Perry Blake é para ser ouvido com o coração. Com o nosso e, com sorte, com outro.

Guardo imagens que nem a terra há de comer.

As vezes que te vejo nunca serão suficientes. Tento, em cada uma, demorar-me o mais possível. Olho sem parar para o que vou perder, ou nunca ganhar.

Faço um esforço para pestanejar menos vezes. Ardem-me os olhos e o coração. Baralho as lágrimas de desgosto com as da insistência.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Enresinado.



Um tronco de pinheiro com uma ferida. Um espelho da alma aqui mesmo. Coisas que correm: seiva, sangue ou lágrimas, tantas faz. O Amor plantado num golpe de azar que nos derruba os sonhos.

Vivemos no conforto dos ferimentos que nos ajudam. Precisamos da navalha que corta as mordeduras envenenadas, da saudade que nos punça o vazio das horas sós, da agulha que nos extrai os espinhos e as falhas.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Desejo, saudade e riso.

Descubro, em muitas palavras que troco, a moda, e o grau de convicção com que esta se veste. Quando estou sozinho lembro-me de que em termos de confiança e indumentária nada se compara à forma natural com que vestes as meias.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

É uma frustração do tamanho de um orfanato.



Tenho que fingir que a tua boca não foi assim tão dulcíssima e que afinal a tua respiração não era ciclónica. Tenho que me convencer que o que carrego no peito não são brasas. Acreditar que a tua língua já não me encerra nos sonhos.

E acima de tudo tenho que me amarrar, cada vez que me lembro que também tu derivas numa vida que julgas ser a certa.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Apotegma.



A paixão não é uma mentira mas é uma verdade esfarrapada.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

A loja do Amor sem meias medidas



Ontem fui o homem mais feliz do mundo. O irmão mais velho do sonho. O papel de rebuçado de Domingo. Ajudei a vaidade suprema, aquela que inunda a Noiva a sair de casa.

Fui com o meu irmão mais novo comprar o seu fato de Noivo. Provas, conselhos de quem sabe e pregas de sorrisos. Camisas de punho duplo, cintos que o sapateiro vai afinar, bainhas ao milímetro e crianças a correr à nossa volta. Crianças que não pararam de suar e de atirar pedras para o mar da nossa infância. Salpicos nos olhos e gargalhadas de sal.

Se alguma vez fui feliz, foi ontem. Se houve uma altura em que o sangue sincero nos deitou os joelhos abaixo numa corrida de bicicletas, foi ontem também.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Auschwitz.



Uma homenagem aos 6 milhões que um dia nasceram, brincaram, foram amados, apaixonados, tiveram filhos, primos, vergonha, dignidade, respeito, e ouviram “…quem aqui entra, só volta a sair pelo fumo da chaminé”.

Vou ali envergonhar-me de pertencer a esta raça e já volto.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Saudade inteligente.



Uma palavra para tudo o que não está. A vida, o Verão ou alguém que se ama. O que for ausente merece uma palavra, ainda que seja um grito alto de menos para ser ouvido por quem deve.

Fosse este blog uma bomba e o título deste post seria “eu hoje adormeci assim”.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Beijar para crer.



Olho-te de frente e sei que os meus olhos estão a mentir. Ouço o que dizes e também os ouvidos são impostores. Eu respondo com verdades inventadas à pressa.

Tenho a certeza de que a vida é feita pelo que os nossos sentidos se esquecem. Falas, mas os teus olhos desmentem-te com sinais matreiros. As palavras que ouço teriam que ser desmanteladas e as letras repostas no sentido do que nos esmaga o peito.

Não acredito na vida real. Acredito em ti e no que me chega sem ser deturpado pelas palavras, mesmo as bonitas. Os beijos servem, antes de tudo, para amputar tudo o que está a mais.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Muito Obrigado.

São as mulheres, na última de todas as instâncias, que têm a palavra do Amor. São elas que decidem, permitem ou amam. E ainda bem, ao menos que seja a inteligência, sensibilidade e bom senso (ou a sua falta) a decidirem sobre o futuro dos corações de todos.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

A hora das revisitas.



Passo muitas vezes por sítios onde fui feliz. Ao contrário do que se pede, volto sempre a lugares onde ecoam ainda os meus sorrisos. Descidas onde a bicicleta daria mais se pudesse, ruas que me viram passar com mochilas de cores vivas às costas, balizas que me gritam o estrondo de cada golo que marquei.

Casas onde entrei e que ainda hoje guardam partes de mim, janelas que fechei para amar como se não houvesse hoje.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Até já, Rubi Sangue de Pombo.

Existem na nossa vida Amores que não temos coragem de viver. São como jóias que não chegamos a usar. Guardamo-los debaixo da almofada com medo que alguém roube. Até nas noites em que não levantamos a almofada para os ver, mesmo nessas, sabemos que eles lá estão. E isso faz com que durmamos melhor.

Uma noite talvez tenhamos coragem e a fortuna de usar uma dessas jóias. Numa noite qualquer, com a própria vida a rebate.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Vista Desarmada.



Mesmo no fim, antes de ficar tudo preto, penso no tanto que fomos um para o outro. Gravo as tuas palavras finais e beijo-te com o último resto de legitimidade.

A partir daqui seremos estranhos, como se nunca nos tivéssemos conhecido. Não sei o que fazer com o pânico que me está a afogar nessa verdade.

Chega alguma paz, na certeza de saber que o que vivemos foi demasiado grande para o conseguirmos agarrar. Tão grande, que vejo todas as noites os seus fragmentos por entre os farrapos de céu.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Aguardem na sala que o doutor chame, s.f.f.

Não é só o coração que tem recaídas, os pulmões também. Os bichos dentro de mim não param sossegados. Amanhã há mais, se conseguir recuperar a inspiração (e já agora, a expiração).

terça-feira, janeiro 18, 2005

Cuidado, não batas no oratório quando fores à casa de banho.



Encontramo-nos num quarto decorado por alguém que já não mora aqui. Com lençóis de flanela que não conhecem as mãos que agora os passam. As paredes são de um verde seco como se quem as pintou tivesse deixado de as regar.

Demasiado sôfregos de nós próprios, só no fim reparamos num frasco de perfume que ainda nos olha da cómoda.

- É Ô de Lancome, o que a minha avó usava. Está vazio. Como esta casa que só hoje voltou a ver o Amor.

- O que é que sentes?

- Saudades de quando era criança, da primeira vez que fui aqui feliz. E a cara um bocadinho encarnada por te ter amado assim à frente do meu passado.

domingo, janeiro 16, 2005

Leito quente e mel.



Alguns problemas resolvem-se na cama e este é mais um. A garganta a arder, tosse e vestígios febris não auguram nada de bom.

Sinto muito, (mais propriamente arrepios). Só amanhã o Amor que nasce entre os pulmões doridos tornará a esta casa.

sábado, janeiro 15, 2005

Realidade fértil.

Na paixão, um simples telefonema de três minutos pode significar o Sol de todo um dia. Podemo-nos levantar obcecados pela sua chegada e deitar a revisitar cada palavra, pausa ou respiração que o fez.

Imagine-se, um beijo.

Exposição de Paula Rego em Serralves.



É tanto o que vai dentro daquela mulher. Há coisas que não se percebem, o génio é uma delas. Outra é o Amor.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Soldado a ti.



Sinto-me muitas vezes como um soldado inexperiente tombado. Acabado, atingido pela vida na coluna, e por isso sem dores. Com um sorriso de despedida lembro-me de ti e de tudo o que poderíamos ter sido. A terra e as pedrinhas na cara visitam-me a infância, sinto o calor do meu próprio sangue nas costas e na perdição da primeira vez.

Fixo um ramo de carvalho para não me distrair. Espero que a carta que trago no bolso te seja entregue.

Mesmo com frio, ficarei a sorrir. Bastarão as tuas lágrimas e as do meu pai.

“Meu Deus, é tão específico.”

Descobri, através do seu blog, que o João Pedro, comentador do post que quase levou bolinha encarnada no canto, é estudante de cirurgia. Assim se explica a prontidão da resposta: Tubérculos de Montgomery.

Quem não leu terá que lá ir à caixa de comentários perceber do que se trata (post de terça-feira). Vale a pena, é o que vos digo.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Prefiro uma lufada de ar quente.



Um beijo como derradeira decisão impele os nervos na direcção da loucura que já devia ter sido há muito. Os lábios e a vida balbuciam-nos à frente. De repente, tudo cá dentro se vira para a boca, por onde, pelos vistos, não são só os peixes que morrem.

As línguas tocam-se a arder. O mundo esquece-se de continuar a rodar, mas a nossa cabeça não. Só agora percebo que a ânsia era demasiado grande para caber só em mim.

Dobro-me como uma presa a entregar-se à morte, na garganta sinto o calor da respiração que me arruína.

Fabrico próprio.

Querem ler umas palavras minhas fora do Estranho Amor? Provem o Pastel de Tentúgal daqui e digam o que vos parece.

Por aqui o Amor é dos eternos e segue já de seguida (acabadinho de fazer).

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Nada mais que a Verdade.



Às novas paixões e às refeições acabadas de fazer, basta-lhes isso para terem logo outra graça.

Senhoras e Senhores, um post à moda antiga (como os que fizeram o início deste blog).

Sou muito pequeno para te beijar de uma só vez. És demasiado fugaz para te domar o sopro que me tomba. Sei que um dia farei Amor contigo se houver sítio neste mundo que resista ao nosso sangue a ferver.

Assim será se houver céu que consiga cobrir a fúria das mãos e terra que não se envergonhe de nunca ter amado assim.

terça-feira, janeiro 11, 2005

E isto é só o que eu digo. Havias de saber o que eu penso!



Apetece-me lembrar o véu que é a pele dos teus lábios quando me beijas. A comichão dos teus cabelos no meu nariz ocupado com o teu aroma. Apetece-me lembrar o som dos sapatos a cair, o das tuas mãos a tirar as meias e o meu juízo ao mesmo tempo. Dos altinhos minúsculos que te cercam os mamilos, aqueles que o Salvador Dali sabia o nome e que eu nunca me lembro.

E é melhor ficar por aqui senão ainda tenho que pôr uma bolinha encarnada no canto do post.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Fica-te bem o castanho dos meus olhos.



O banho, a saia, o perfume, a sombra e os sapatos levam-te à risca do que planeaste. Tudo bate certo menos o coração. A linha negra dos olhos faz-te mais bonita à primeira, mas não te deixa ver para além da incerteza.

Para quê? Achas que vai fazer alguma diferença? Escusavas de te incomodar, ainda para mais sabes que a roupa não é interior o bastante para te salvar.

domingo, janeiro 09, 2005

4 de Maio de 1771.



“Werther” de Goethe é fulminante e pouco aconselhável a cardíacos. Um amigo avisou-me do seu calibre mas eu não liguei. Brinquei com ele como uma criança com uma arma carregada. Acabei de o ler no comboio, sozinho felizmente, e não me lembro de algum dia ter feito um esforço tão grande para me manter composto.

As lágrimas dissolveram-me uma parte por dentro, sem nenhuma cair (tecnicamente, só quando alguma escorrega pela face é que se pode considerar choro).

Romeu e Julieta é uma comédia quando comparado com esta carga de profundidade.

A coragem para o aconselhar ficou por terra. Na que enterrou todas as que eu pensava serem grandes histórias de Amor.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Prescrição.



Antes de existir Freud e a depressão existia a melancolia. Nos casos de Amor mais graves, podia levar à morte por desistência de se querer sorrir. Era uma doença com tratamento mas sem cura garantida.

Agora existes tu. E eu, com uma âncora no peito, fundeado num mar que já foi vivo.

Antes assim. Prefiro ficar à sombra de um Salgueiro na praça do que num divã aquecido por desgostos estranhos.