terça-feira, janeiro 18, 2005

Cuidado, não batas no oratório quando fores à casa de banho.



Encontramo-nos num quarto decorado por alguém que já não mora aqui. Com lençóis de flanela que não conhecem as mãos que agora os passam. As paredes são de um verde seco como se quem as pintou tivesse deixado de as regar.

Demasiado sôfregos de nós próprios, só no fim reparamos num frasco de perfume que ainda nos olha da cómoda.

- É Ô de Lancome, o que a minha avó usava. Está vazio. Como esta casa que só hoje voltou a ver o Amor.

- O que é que sentes?

- Saudades de quando era criança, da primeira vez que fui aqui feliz. E a cara um bocadinho encarnada por te ter amado assim à frente do meu passado.

domingo, janeiro 16, 2005

Leito quente e mel.



Alguns problemas resolvem-se na cama e este é mais um. A garganta a arder, tosse e vestígios febris não auguram nada de bom.

Sinto muito, (mais propriamente arrepios). Só amanhã o Amor que nasce entre os pulmões doridos tornará a esta casa.

sábado, janeiro 15, 2005

Realidade fértil.

Na paixão, um simples telefonema de três minutos pode significar o Sol de todo um dia. Podemo-nos levantar obcecados pela sua chegada e deitar a revisitar cada palavra, pausa ou respiração que o fez.

Imagine-se, um beijo.

Exposição de Paula Rego em Serralves.



É tanto o que vai dentro daquela mulher. Há coisas que não se percebem, o génio é uma delas. Outra é o Amor.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Soldado a ti.



Sinto-me muitas vezes como um soldado inexperiente tombado. Acabado, atingido pela vida na coluna, e por isso sem dores. Com um sorriso de despedida lembro-me de ti e de tudo o que poderíamos ter sido. A terra e as pedrinhas na cara visitam-me a infância, sinto o calor do meu próprio sangue nas costas e na perdição da primeira vez.

Fixo um ramo de carvalho para não me distrair. Espero que a carta que trago no bolso te seja entregue.

Mesmo com frio, ficarei a sorrir. Bastarão as tuas lágrimas e as do meu pai.

“Meu Deus, é tão específico.”

Descobri, através do seu blog, que o João Pedro, comentador do post que quase levou bolinha encarnada no canto, é estudante de cirurgia. Assim se explica a prontidão da resposta: Tubérculos de Montgomery.

Quem não leu terá que lá ir à caixa de comentários perceber do que se trata (post de terça-feira). Vale a pena, é o que vos digo.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Prefiro uma lufada de ar quente.



Um beijo como derradeira decisão impele os nervos na direcção da loucura que já devia ter sido há muito. Os lábios e a vida balbuciam-nos à frente. De repente, tudo cá dentro se vira para a boca, por onde, pelos vistos, não são só os peixes que morrem.

As línguas tocam-se a arder. O mundo esquece-se de continuar a rodar, mas a nossa cabeça não. Só agora percebo que a ânsia era demasiado grande para caber só em mim.

Dobro-me como uma presa a entregar-se à morte, na garganta sinto o calor da respiração que me arruína.

Fabrico próprio.

Querem ler umas palavras minhas fora do Estranho Amor? Provem o Pastel de Tentúgal daqui e digam o que vos parece.

Por aqui o Amor é dos eternos e segue já de seguida (acabadinho de fazer).

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Nada mais que a Verdade.



Às novas paixões e às refeições acabadas de fazer, basta-lhes isso para terem logo outra graça.

Senhoras e Senhores, um post à moda antiga (como os que fizeram o início deste blog).

Sou muito pequeno para te beijar de uma só vez. És demasiado fugaz para te domar o sopro que me tomba. Sei que um dia farei Amor contigo se houver sítio neste mundo que resista ao nosso sangue a ferver.

Assim será se houver céu que consiga cobrir a fúria das mãos e terra que não se envergonhe de nunca ter amado assim.

terça-feira, janeiro 11, 2005

E isto é só o que eu digo. Havias de saber o que eu penso!



Apetece-me lembrar o véu que é a pele dos teus lábios quando me beijas. A comichão dos teus cabelos no meu nariz ocupado com o teu aroma. Apetece-me lembrar o som dos sapatos a cair, o das tuas mãos a tirar as meias e o meu juízo ao mesmo tempo. Dos altinhos minúsculos que te cercam os mamilos, aqueles que o Salvador Dali sabia o nome e que eu nunca me lembro.

E é melhor ficar por aqui senão ainda tenho que pôr uma bolinha encarnada no canto do post.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Fica-te bem o castanho dos meus olhos.



O banho, a saia, o perfume, a sombra e os sapatos levam-te à risca do que planeaste. Tudo bate certo menos o coração. A linha negra dos olhos faz-te mais bonita à primeira, mas não te deixa ver para além da incerteza.

Para quê? Achas que vai fazer alguma diferença? Escusavas de te incomodar, ainda para mais sabes que a roupa não é interior o bastante para te salvar.

domingo, janeiro 09, 2005

4 de Maio de 1771.



“Werther” de Goethe é fulminante e pouco aconselhável a cardíacos. Um amigo avisou-me do seu calibre mas eu não liguei. Brinquei com ele como uma criança com uma arma carregada. Acabei de o ler no comboio, sozinho felizmente, e não me lembro de algum dia ter feito um esforço tão grande para me manter composto.

As lágrimas dissolveram-me uma parte por dentro, sem nenhuma cair (tecnicamente, só quando alguma escorrega pela face é que se pode considerar choro).

Romeu e Julieta é uma comédia quando comparado com esta carga de profundidade.

A coragem para o aconselhar ficou por terra. Na que enterrou todas as que eu pensava serem grandes histórias de Amor.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Prescrição.



Antes de existir Freud e a depressão existia a melancolia. Nos casos de Amor mais graves, podia levar à morte por desistência de se querer sorrir. Era uma doença com tratamento mas sem cura garantida.

Agora existes tu. E eu, com uma âncora no peito, fundeado num mar que já foi vivo.

Antes assim. Prefiro ficar à sombra de um Salgueiro na praça do que num divã aquecido por desgostos estranhos.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Amor ou Muerte!



Os desencontros servem para manter acesa uma luz. Não sei porquê, nem qual nem onde. Só sei que a esperança de estarmos errados acende o brilho no olhar. A correcção integral é a morte.

Passamos os dias sentados num colo desencorajado. Envergonhados por amar mais que a conta. A revolução é silenciosa. Explana-se nos sonhos mas retira-se quando acordamos.

Espero não ter razão. Ou então que alguém ma tire numa montanha grávida de emoções.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Cá vamos indo, cantando e rindo.



São muitas as verdades que te digo disfarçadas de piada. Ao contrário, a tua boca depressa susteria as palavras da minha e as tuas mãos não estariam à altura da compostura.

São tantas as perguntas que um dia vou fazer. Beijarei cada resposta que apanhar no atropelo da tua vontade.

E o tempo que demora? E o frio que me faz? E o teu peito que parece uma crisálida tardia?

segunda-feira, janeiro 03, 2005

A vida lembra-me um brinquedo barato.

Mesmo quando é nova não funciona na perfeição. E às vezes, nas maiores fantasias, corta-nos os indicadores.

Happy Days.

Grandes dias. Bom tempo, Natal, Ano Novo e um Aniversário. Como se costuma dizer, colaram-se umas às outras.

Difícil é saber que será difícil ser mais feliz.

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Revolver.



Lembro os beijos que me atiraste à cara. Os que me atiraram para longe e os que acompanharam a roupa que tiravas.

Lembro o que me acertou primeiro. E tantos que passaram a arrasar o desassossego.

Todos fizeram tudo menos importante.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Como o Amor verdadeiro.

O Bolo Rei da pastelaria Tijuca (em Alhandra) ainda sabe melhor de um dia para o outro.

Passa aí mais uma filhós para a Rennie não me cair na fraqueza.

Demasiados sonhos.

Neste Natal ingeri tantas calorias quantas as humanamente possíveis. Apesar de não ser oficial, este e outros recordes gastronómicos foram batidos por mim. Encontro-me a recuperar, com melhorias assinaláveis nas últimas 24 horas.

O Amor segue dentro de momentos.

quarta-feira, dezembro 22, 2004

É Natal.



Compras, calorias, saudades e frio. Às vezes parece que tudo está a mais.

Até o Sol e os dias bonitos se podem considerar mau tempo, tendo em conta que estamos no Natal.

Sorrisos e verdade. Às vezes parece que tudo está a menos.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Touch by the hand of God.

Ao comprar os últimos recursos logísticos para a consoada, vejo uma menina dos seus dez anos a brincar com artigos expostos numa prateleira da loja. Aproximo-me e reparo que são daqueles manequins articulados que os estudantes de arte usam para esboçar o futuro.

A menina, de beleza a prometer muitos corações partidos, vai juntando os manequins aos pares, bem abraçados como se os beijos e o desejo pudessem ser de pinho envernizado. Como se fosse uma deusa do Amor a aprender o ofício.

Como se Amor vivesse onde queremos ou gostamos.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Reserva, 1970.



São tão bons os momentos e as gargalhadas de hoje. É tão especial este jantar e esta luz que nos interna. É tão rica esta história que se tivesse um final seria feliz. Realidade dulcíssima, refractada nos copos encarnados, que me devolve à infância ou à sua perda. A carne não podia estar mais apurada e o vinho amansa as horas.

O futuro nunca será melhor que esta noite.

Se fosse um final, seria feliz.

sábado, dezembro 18, 2004

Colherada.

Para a Marina e para a Satine (comentários do post de ontem) e porque também se conquistam pessoas pelo estômago, cá vai a receita:

Pastel de Nata
Para a massa: Farinha, 250g
Manteiga, 125g
Banha, 75g
Sal, 1 c. de café

Peneira-se a farinha com o sal para um tigelão e amassa-se com água fria, apenas a necessária para formar uma bola ligada, que se deixa descansar 10 minutos. Bate-se a manteiga juntamente com a banha com uma espátula de madeira e mete-se no frigorífico também durante 10 minutos. Estende-se a massa sobre a pedra da mesa com o rolo de madeira , formando um quadrado, que se barra com metade da mistura manteiga-banha. Dobra-se ao meio, põe-se sobre uma tábua e mete-se no frigorífico durante outros 10 minutos. Torna-se a estender, barra-se com o resto das gorduras e enrola-se, formando um rolo como um salame. Corta-se em 24 pedaços iguais e mete-se cada um dentro duma forminha pequena. Deixam-se descansar ainda 10 minutos no frigorífico. Moldam-se então dentro das formas os pedaços da massa, puxando-a para fora com os dedos molhados em água fria, para forrar as formas do fundo e dos lados, formando assim as caixas dos pastéis. Deve comprimir-se a massa com os polegares de baixo para os lados, de modo a deixá-la francamente mais fina no fundo.

Para o recheio: Nata, ½ l
Gemas, 8
Açúcar, 150g
Farinha, 10g
Desfaz-se a farinha na nata aos poucos para não formar grumos e bate-se com as gemas e o açúcar. Leva-se ao lume, mexendo sempre, até quase levantar fervura. Vaza-se nas forminhas forradas com a massa, só até ¾ e tendo o cuidado de não sujar as beiras da massa com o creme. Cozem-se em forno muito quente e, querendo, antes de servir polvilham-se com açúcar em pó e canela.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Coisas que me lembrei hoje enquanto ia para o trabalho.

- Não como uma sandes de marmelada há muito, muito tempo.

- A minha avó abafava uma panela com uma manta para manter o frango com esparguete quente até à hora do jantar.

- Faltava-nos o fôlego com o tamanho dos beijos que dávamos.

Ao contrário dos livros, a vida tem vários marcadores. Servem para sabermos onde vamos ou onde estivemos.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

É melhor contarmos com isto.



Salas de parto, registos civis e cemitérios. Se virmos bem, a nossa vida cabe em três espaços e acaba em três tempos.

No fundo, somos a conta que alguém fez.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Precipitação.



As palavras da tua despedida foram o epitáfio de todos os meus sonhos.

O Amor, como a vida, é melhor no início e menos bom quando se aproxima do final.

Desconfio que os dias de chuva são um disfarce de compaixão para as lágrimas. Nesses, aproveito para te ir amarrando às ruas com a corrente quem vem do céu.