quarta-feira, outubro 20, 2004



Tudo o que existe pode ser resumido a números ou expressões matemáticas.
Deve ser por isso que o Amor tantas vezes é infinito.

terça-feira, outubro 19, 2004

Há muito tempo atroz.

Nada entre nós pode correr. As coisas não podem ser piores e, mesmo assim, tentamos ser iguais.

Nunca fizemos Amor. Este, dá a sensação que se fez a ele próprio e que se consumiu sem deixar nada que me agarre à decência da rotina.

Guardo a sombra que te abandonou por ser incompatível com os teus olhos.

domingo, outubro 17, 2004

Play the record again, James.



Acabei de ligar o gira-discos, desactivado há pelo menos 10 anos. O equipamento não é topo de gama e eu não tenho uma discografia em vinil que justifique a reactivação. Contudo, permitiu-me ouvir, por exemplo, este medíocre LP do James Last editado em 1976 que era do meu pai.

Fui buscar forças daquelas que os atletas olímpicos arranjam sem saber onde e que lhes permite bater recordes.

4. Allegro Energico e Passionato – Più Allegro [9’19].



Música para este Inverno e para esta vida. O tributo da Deutsche Grammophon a Carlos Kleiber é uma obra-prima. A sua obsessão pelo perfeito baptizou-o como recordista de concertos anulados à última da hora. Abençoado seja.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Pior que a tua ausência é a tua presença constante em mim.

Revelação condicionada.

Para mim, o termo propriedade privada tem um único significado:
Alguém que pertence a outrem que não se encontra de momento.

P.S. Os termos propriedade e pertence referem-se em exclusivo a relações passionais. Qualquer semelhança com outras realidades é pura coincidência. Todos os direitos reservados aos legítimos cônjuges, namorados ou amantes.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Foi só um sonho, sossega.

Quando era pequeno costumava sonhar:

- Que ia a cair numa vertigem de pânico e suavidade;

- Que pedalava as bicicletas mais bonitas e maiores, mas estas não andavam nada;

- Que andava nu na rua (apesar de ser um sonho a vergonha era real).

Tráfico de Influenza.

Estou constipado. Sei que decorre em mim uma luta titânica entre monstros minúsculos. Uns que já faziam parte da mobília e outros que entraram armados em espertos.

Como se não tivesse suficientes cá dentro, ainda apareceram mais estes que atemorizam os beijos que dou.

quarta-feira, outubro 13, 2004

“Haja o que houver, há-de haver sempre um homem para uma mulher”

O melhor de um dos mundos.



- Já reparaste que a estupidez é a maior multinacional.

- Já. Mas olha que o Amor também é igualmente global.

- Pois é. Amo-te estupidamente.

terça-feira, outubro 12, 2004

A arder desta maneira, só pode ser Amor posto.



Encarnado de vergonha e de prazer galopante. Arrepio ao rubro. A inocência alastrou-se incontrolável à tua boca de incêndio.

Suor e lágrimas sorridentes internam-se no meu peito. O céu a transbordar. As chamas lambem-me o juízo e a sua falta.

sábado, outubro 09, 2004

Liquidado.

Uma punção na alma. Irremediável, a vazar-me do teu adeus. Dá-me mais um minuto, daqueles que faltam ao ferido de morte para dizer quem lhe acertou.

sexta-feira, outubro 08, 2004

- Então, o que fazes na vida?

- Amo-te.

Mais olhos que coração.



As casas são cada vez mais limpas e brancas. Os móveis já não conseguem ser mais lisos. Tudo para que corramos mais rápido. Que nada se interponha entre nós e a ausência ou estímulo involuntário.

Pensamos controlar tudo, até o riso provocado pelas molduras desarrumadas das nossas avós. Tristes, sem perceber que em cima daquele naperon está muito mais do que um espremedor de citrinos cromado.

Custa-me a perceber do que fogem as pessoas. Querem, sem querer.

quinta-feira, outubro 07, 2004

O Estranho Amor – Prova nº 1.



- Não preciso de te provar nada. Nem mesmo que o Amor é estranho, senão repara em nós daqui a seis meses.

- É verdade. Daqui a seis meses seremos estranhos. O que ontem foi permitido amanhã será castigado. A licença para beijar, tocar, sentir e amar caduca agora mesmo. Ainda assim, quando nos cruzarmos, sentiremos qualquer coisa. Quanto mais não seja a saudade imensa de um corpo que, há muito, foi o nosso.

- Acabemos com a conversa. Bem basta o choro que me alaga o peito. Adeus.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Sal.

Gosto de ir à praia, sentir o cheiro da infância e revisitar tudo o que ali guardo. As ondas alisam-me a alma como a areia húmida nas marés baixas.

De ouvidos bem abertos.

“Promove, junto dos teus filhos, a virtude em vez do dinheiro. Em tempos de miséria foi ela que me ajudou.”

Uma das verdades que Beethoven deixou no seu testamento escrito há precisamente 202 anos (25 antes de morrer, quando era já surdo).

segunda-feira, outubro 04, 2004

Improviso.



Na vida real nada é ensaiado, nada é repetido ou treinado. Tudo sai à primeira, para o bem ou para o mal. Tudo é espontâneo, directo e súbito.

E os beijos na boca? Com sabor a roubo, inexperiência ou grandeza?

A ficção é difícil. A vida real é uma fixação.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Preito.



Gostava de voltar a beijar
- Todas as mãos que me tocaram;
- Cada um dos olhos que me procuraram;
- Todas as palavras que me amaram;

Numa espécie de homenagem e despedida. Como as que fazem a actores usados, de preto e de farsa. Numa sala e sob todos os holofotes, a agradecer o ridículo de não ter sabido amar quando devia.

Redenção.

Após a lapidação a que a critica de “Lost in Translation” me condenou, resta-me atirar-vos cópias do “In the Mood for Love” de Wong Kar-Wai. Apesar de ser de Hong-Kong, é mais a minha Tsunami.

quinta-feira, setembro 30, 2004

Vendo DVD “Lost in Translation” de Sofia Copolla, como novo. Só foi utilizado uma vez (acho até que ainda tenho o celofane no caixote do lixo).


Ontem vi-o. De regresso, nada tenho a declarar. Foi bom como uma festa perfumada na mão ou um beijo na testa. Insípido e tão leve que se perde dentro dele próprio.

Como um fundamentalista tardio, pensava que ia ter mais virgens suicidas.

quarta-feira, setembro 29, 2004

O segredo é uma das almas do Amor.

O fim da paixão é como o fim da vida. Chega sem que se dê por ele. Retira metodicamente e com tempo tudo o que foi festa. Desmancha e desarma bancadas e palcos. Arruma para os cantos sobejos. Parte e deixa para trás vestígios que esvoaçam com o Outono.

Contudo, nada pode ficar quieto. A Natureza tem aversão ao vácuo. Sonhos daninhos. Almas danadas.

terça-feira, setembro 28, 2004

Amor – to be continued.




Vejo a beleza incandescente dos actores nos filmes com cinco décadas. Percebo as provas de superficialidade que incriminam a vaidade.

Vem-me à cabeça uma deixa de “The Straight Story” de David Lynch que diz “o pior de ser-se velho é lembrarmo-nos de quando éramos novos”.

Amor em grupo.

Nunca se deve contar a verdade toda. Este é um conselho que vale por dez visitas ao Estranho Amor.

Contudo, é uma das verdades que não consigo praticar. Mas isto sou eu. Como prova da minha boca de trapos, cá vai uma lista de inteligência obrigatória


- Classe Média

- Posso Ouvir um Disco
- Ponto e Vírgula
- Ruminações Digitais

É uma chaga que me reverte à vida de manhã. A ausência como noiva belíssima.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Tenho quase a certeza.


De que os sonhos são janelas com um parapeito um pouco mais alto, na proporção das nossas para as crianças, onde vamos espreitar em bicos de pés outras vidas simultâneas. De vez em quando, nós como protagonistas dessas outras vivências, também vimos cá espreitar esta que julgamos a real.

Quando era criança, numa tentativa desesperada de estabelecer um laço material com uma das outras realidades, agarrei-me a uma pistola cromada igualzinha à do mascarilha para ver se acordava ao meu lado. Nessa manhã percebi que havia coisas que não se misturavam.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Remoinhos.




Guardamos segredo de sítios que queremos só nossos. Lugares que nos recebem e aconchegam como se fossemos só deles.

O meu peito aqui tão longe, deserto para ficar só.

- Resume-te numa palavra.

- Amo-te.

quinta-feira, setembro 23, 2004

Amor migratório.


São tantas as cordas que me impedem de descansar. Para mim os dias são somas de pequenas noites. De escuros e silhuetas indefinidas.

Impedes-me de tolerar a passagem dos anos. Empurras-me para fora de mim próprio.