sexta-feira, outubro 08, 2004

- Então, o que fazes na vida?

- Amo-te.

Mais olhos que coração.



As casas são cada vez mais limpas e brancas. Os móveis já não conseguem ser mais lisos. Tudo para que corramos mais rápido. Que nada se interponha entre nós e a ausência ou estímulo involuntário.

Pensamos controlar tudo, até o riso provocado pelas molduras desarrumadas das nossas avós. Tristes, sem perceber que em cima daquele naperon está muito mais do que um espremedor de citrinos cromado.

Custa-me a perceber do que fogem as pessoas. Querem, sem querer.

quinta-feira, outubro 07, 2004

O Estranho Amor – Prova nº 1.



- Não preciso de te provar nada. Nem mesmo que o Amor é estranho, senão repara em nós daqui a seis meses.

- É verdade. Daqui a seis meses seremos estranhos. O que ontem foi permitido amanhã será castigado. A licença para beijar, tocar, sentir e amar caduca agora mesmo. Ainda assim, quando nos cruzarmos, sentiremos qualquer coisa. Quanto mais não seja a saudade imensa de um corpo que, há muito, foi o nosso.

- Acabemos com a conversa. Bem basta o choro que me alaga o peito. Adeus.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Sal.

Gosto de ir à praia, sentir o cheiro da infância e revisitar tudo o que ali guardo. As ondas alisam-me a alma como a areia húmida nas marés baixas.

De ouvidos bem abertos.

“Promove, junto dos teus filhos, a virtude em vez do dinheiro. Em tempos de miséria foi ela que me ajudou.”

Uma das verdades que Beethoven deixou no seu testamento escrito há precisamente 202 anos (25 antes de morrer, quando era já surdo).

segunda-feira, outubro 04, 2004

Improviso.



Na vida real nada é ensaiado, nada é repetido ou treinado. Tudo sai à primeira, para o bem ou para o mal. Tudo é espontâneo, directo e súbito.

E os beijos na boca? Com sabor a roubo, inexperiência ou grandeza?

A ficção é difícil. A vida real é uma fixação.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Preito.



Gostava de voltar a beijar
- Todas as mãos que me tocaram;
- Cada um dos olhos que me procuraram;
- Todas as palavras que me amaram;

Numa espécie de homenagem e despedida. Como as que fazem a actores usados, de preto e de farsa. Numa sala e sob todos os holofotes, a agradecer o ridículo de não ter sabido amar quando devia.

Redenção.

Após a lapidação a que a critica de “Lost in Translation” me condenou, resta-me atirar-vos cópias do “In the Mood for Love” de Wong Kar-Wai. Apesar de ser de Hong-Kong, é mais a minha Tsunami.

quinta-feira, setembro 30, 2004

Vendo DVD “Lost in Translation” de Sofia Copolla, como novo. Só foi utilizado uma vez (acho até que ainda tenho o celofane no caixote do lixo).


Ontem vi-o. De regresso, nada tenho a declarar. Foi bom como uma festa perfumada na mão ou um beijo na testa. Insípido e tão leve que se perde dentro dele próprio.

Como um fundamentalista tardio, pensava que ia ter mais virgens suicidas.

quarta-feira, setembro 29, 2004

O segredo é uma das almas do Amor.

O fim da paixão é como o fim da vida. Chega sem que se dê por ele. Retira metodicamente e com tempo tudo o que foi festa. Desmancha e desarma bancadas e palcos. Arruma para os cantos sobejos. Parte e deixa para trás vestígios que esvoaçam com o Outono.

Contudo, nada pode ficar quieto. A Natureza tem aversão ao vácuo. Sonhos daninhos. Almas danadas.

terça-feira, setembro 28, 2004

Amor – to be continued.




Vejo a beleza incandescente dos actores nos filmes com cinco décadas. Percebo as provas de superficialidade que incriminam a vaidade.

Vem-me à cabeça uma deixa de “The Straight Story” de David Lynch que diz “o pior de ser-se velho é lembrarmo-nos de quando éramos novos”.

Amor em grupo.

Nunca se deve contar a verdade toda. Este é um conselho que vale por dez visitas ao Estranho Amor.

Contudo, é uma das verdades que não consigo praticar. Mas isto sou eu. Como prova da minha boca de trapos, cá vai uma lista de inteligência obrigatória


- Classe Média

- Posso Ouvir um Disco
- Ponto e Vírgula
- Ruminações Digitais

É uma chaga que me reverte à vida de manhã. A ausência como noiva belíssima.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Tenho quase a certeza.


De que os sonhos são janelas com um parapeito um pouco mais alto, na proporção das nossas para as crianças, onde vamos espreitar em bicos de pés outras vidas simultâneas. De vez em quando, nós como protagonistas dessas outras vivências, também vimos cá espreitar esta que julgamos a real.

Quando era criança, numa tentativa desesperada de estabelecer um laço material com uma das outras realidades, agarrei-me a uma pistola cromada igualzinha à do mascarilha para ver se acordava ao meu lado. Nessa manhã percebi que havia coisas que não se misturavam.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Remoinhos.




Guardamos segredo de sítios que queremos só nossos. Lugares que nos recebem e aconchegam como se fossemos só deles.

O meu peito aqui tão longe, deserto para ficar só.

- Resume-te numa palavra.

- Amo-te.

quinta-feira, setembro 23, 2004

Amor migratório.


São tantas as cordas que me impedem de descansar. Para mim os dias são somas de pequenas noites. De escuros e silhuetas indefinidas.

Impedes-me de tolerar a passagem dos anos. Empurras-me para fora de mim próprio.

Boas sementes.

Num só dia comprei a Balada do Mar Salgado – Corto Maltese de Hugo Pratt (edição do Público) e os novos discos de Nick Cave and The Bad Seeds: Abattoir Blues e The Lyre of Orpheus.

Venham as contrariedades e os velhacos. Existem dias que não se conseguem estragar.

quarta-feira, setembro 22, 2004

Amor recorrente.


- Hoje começa o Outono.

- Pois é. Mais um, como se tivéssemos poucos.

- Às vezes penso naquela música que diz: um dia toda a gente que amas morrerá.

- Como diz o outro: só a verdade é revolucionária. Meu querido, faremos amor ainda hoje.

My name is Amor, Estranho Amor.



Acredito sinceramente que existe algures um James Bond a colmatar tudo o que me esqueço de fazer. Uma espécie de seguro contra todas as ausências e faltas de jeito. Alguém que zela pelos telefonemas que devo ou que repara nos cortes de cabelo à minha volta.

terça-feira, setembro 21, 2004

Não quero passar das marcas.




Gosto de marcas. De ervilhas sobreviventes num prato, dos riscos do tempo num muro ou das nódoas na bata de uma parteira. De insectos numa maçã e das unhas dum carvoeiro.

Sobras de acaso que se espalham por nós, a lembrar que tudo o que se faz é indelével, como as marcas que o teu corpo me vestiu.

domingo, setembro 19, 2004

Amor em estado alfa.

Os dias nunca seriam cinzas. As horas nunca seriam tardes nem más.
Se todas as noites sentisse no ouvido ar tépido da tua (c)alma.

Se, para nós, tudo fosse realmente simples como o é na verdade.

sábado, setembro 18, 2004

O Amor não passará.




Como se alguém pudesse perceber a revolta da tua ausência. Como se tudo pudesse ser contabilizado. Como se isso interessasse para alguma coisa.

Ensinaste-me a perder tudo, até o que nunca tive. Piores são os golpes do meu mau estado.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Guardo e adoro:

- Um galhardete feito à mão em 1969 de um jogo de futebol entre amigos onde o meu pai foi lateral direito;

- Um Pato Donald de borracha que me foi oferecido assim que nasci (1970);

- Uma cicatriz no joelho de uma queda de bicicleta em 1979;

- Uma de muitas musicas que ouço regularmente – Unfinished Sympathy dos Massive Attack (1991);

- Saudades de todos quanto amei como quem ama um filho, daquelas que nos fazem gigantes.

quinta-feira, setembro 16, 2004

Amor perdido pela demora.



Levaste-me e esperaste que te roubasse a compostura. Fugiste para a frente mas eu tive tempo de parar. Não vi a expectativa do nó que guardavas. Fugi de mim e do começo do que se veio a revelar infinito, enquanto durou.

Apenas o som arrítmico de corações no escuro da minha inocência.

Palerminha, sorris.

quarta-feira, setembro 15, 2004

O outro lado do Amor.


O “Amor de Perdição” vendeu 80 mil cópias na China em poucos dias. Uma das razões foi a identificação dos jovens chineses com as personagens principais do livro e os seus problemas.

O Amor é a única linha a que todos sem excepção se querem segurar. A ruína ou a fortuna são iguais aqui ou na China.

terça-feira, setembro 14, 2004

Meus senhores, não há aqui nada para ver. É circular, faz favor, é circular.

Amor bypass.

Mesmo sem os exames na minha mão consigo ver que a menina não sofre de nada. O seu mal é pedra no coração.

O coração tanto bate até que pára.

segunda-feira, setembro 13, 2004

As 7 quintas de Amor.



Há muitos, muitos posts atrás, escrevi sobre um sítio que me era demasiado querido. A infância, a adolescência, alguns presentes e o futuro estão irremediavelmente aqui ligados. Um sonho composto por dois sobreiros, um bebedouro e um lago minúsculo com todas as cores vivas que se possa imaginar.

Qualquer fotografia mostra só a casca da verdade ali encerrada.