sexta-feira, janeiro 09, 2004

Amor em alerta laranja.

A urgência e a azáfama plantam sementes de nervosismo. A pressa de juntar o que tem que ser para o que aí vem deixa-me a sonhar. ”Dazzle” dos Siouxie and the Banshees soa-me como sirenes rápidas de um passado que agora começa a reencarnar.

Os violinos e o piano, do tempo em que a música ainda se fazia com cordas, levam-me de olhos fechados até ao que parece ser uma espécie de teu andor.

A tua imagem tenta tragar o que ainda me mantém equilibrado. O flagelo da saudade vai-se arruinar quando os teus lábios me oferecerem a melhor de todas as dádivas.

Vou sair para ir ao teu encontro. O silêncio que aqui deixo é falso.

quinta-feira, janeiro 08, 2004

250g de desculpas s.f.f.

Chego à minha rua, desligo o carro e começo a juntar coisas para sair, fechar e andar. No meio da azáfama reparo que o meu merceeiro estava sentado no carro ao lado, (melhor que o meu), com os afazeres inversos, lojinha acabada de fechar.

Já cá fora, levanto a mão que tinha mais à mão para lhe acenar. Largo a porta que lhe vai bater na dele. Vejo-me obrigado a encetar uma careta de desculpa e de vergonha acanhada.

Ele, já instalado, avia-me um pequeno sorriso a despenalizar e arranca.

Amor extraviado.

Prefiro esperar sem que chegues a vir, do que vires para dizeres que não voltas. Prefiro olhar para a esquina e contar infinitas vezes até 3 para apareceres e nunca me cansar. Prefiro imaginar que não somos donos de nós próprios e que alguém nos mandou por outros caminhos.

Prefiro saber que existes e não te ter, do que rir de quem me contava que não eras um sonho.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

Por Amor de Deus V.

Notícia ontem no Telejornal da RTP1: Adeptos benfiquistas não ficaram satisfeitos com o treino realizado.

Este jornalismo ofusca qualquer réstia de discernimento.

Amor a matar o tempo e vice-versa.

O tempo é sagaz e douto. Vai tornando leve o peso da ausência. Vai distraindo o touro enquanto o matador se levanta empoeirado a coxear. Deixa passar alguém estranho que nos prende por momentos. Vai-nos retendo até ouvirmos a música que gostamos quando chegamos a casa. Apaga com um pano húmido os nossos quadros negros. Leva tudo o que dissemos ainda agora. Arruma sem pressa o que está espalhado dentro de nós. Permite que pensemos que o enganamos.

terça-feira, janeiro 06, 2004

The Amor Leaf.

O meu amigo André apareceu ontem lá na agência, (sim sou publicitário como ele), com um disco que é um primor. Uma raridade que não se arranja nem na China, diz ele.

The Album Leaf “One day, I’ll be on time” Vão aqui que encontram.

Belíssimos instrumentais a tomar três vezes ao dia. Sem contra-indicações.

Security area do not cross - Amor - Security area do not cross - Amor.

Não te posso ter mais perto. Deves manter-te aí onde te consiga ver de corpo inteiro. As tuas mãos têm que estar longe da minha ruína. Como um mendigo que rejeita um bife do lombo para evitar o sofrimento da recordação, eu recuso a tua boca.

Os homens que foram teus perderam-se. Jamais esqueceram o fogo que os marcou como se marcam os novilhos bravos. Ao contrário destes, o teu nome incandescente gravou-lhes para sempre a alma e não a carne.

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Amor automobilizado.

Gosto de carros velhos, daqueles que nenhuma mulher gosta a não ser que esteja apaixonada pelo dono. Dos que não são clássicos e que estão ainda a cem mil quilómetros de lá chegar.

Penso sempre que os seus donos não têm um melhor porque não querem gastar dinheiro mal gasto e, como tal, reconheço-lhes inteligência, à partida (e à chegada).

Quem tem carros velhos leva sempre o risco na bagageira, ao pé das garrafas vazias de plástico, dos sacos de praia do ano passado, do boné encardido e do pára-sol do Continente.

Na condução, como na paixão, a emoção não é traduzida pelo número de cavalos. É antes dada pela falta de controlo nos que se tem.

domingo, janeiro 04, 2004

”D” de Amor.

“D” de Dário

Gostava:
- Do triciclo tipo cigano-em-início-de-actividade onde entregava as botijas de gás BP;
- Dos filhos quando o ajudavam nalguma entrega a mais de duzentos metros da sua mercearia (isto acontecia apenas 1 a 2 vezes em cada 7 anos);
- De vender melões às metades mesmo quando os clientes queriam levar o fruto todo (as reformas miseráveis de algumas freguesas deram-lhe a oportunidade de iniciar esta forma de comércio criativo).

Não Gostava:
- Que o triciclo não pegasse à primeira nas manhãs de Inverno;
- De não conseguir arrumar as míticas quarenta e sete botijas na caixa do triciclo. Record pessoal consumado várias vezes entre o 5º e o 8º copo de três na taberna do Barroca, (qualquer tentativa fora deste intervalo era escusada);
- De usar o capacete branco com protecção em napa para as orelhas (quando passou a ser obrigatório o seu uso, o chiar das rodas traseiras na descida do Bandarra nunca mais foi o mesmo).

No fim:
É um amigo do meu tio Camilo. Colegas na escola até à 4ª e actuais detentores de vários e inatingíveis recordes pessoais na ingestão de copos de três (dos outros também quando calha). Desde 1973 que não bebe água, facto verídico e comprovado por inúmeros médicos, incapazes de compreender o que o move.

Amor impossível de se aturar.

Um tabuleiro com a mais fina e secreta massa defendida por um pano de linho. Em cima de uma bancada de madeira tosca, em frente à boca de um forno que aquece o ar e o espírito de quem deixa (ou consegue).

A maviosa guloseima nascerá com o tempo certo, que tanto acrescenta à mágica porção de carinho posto.

Há coisas ricas que se escondem por detrás de um véu, mesmo à mão de semear de uma diabrura.

sábado, janeiro 03, 2004

Amor possível.

Tenho um disco que, como outros, pôs uma marca no meu percurso como os velhos vídeos VHS faziam cada vez que iniciávamos uma gravação. Daquelas indeléveis, pelas quais se pode referenciar uma dada altura da vida. Esse disco é o Hôtel Costes by Stéphane Pompougnac.

Após dez promessas, 4 telefonemas, e um banho decidi dar-lhe vida outra vez. Com um tremor de mãos, como um alcoólatra carenciado pela manhã, volto a ver-te. Voltas a dançar, voltas a olhar a Lua, voltas a beijar-me, voltas a voltar a dançar e voltas a ser feliz. Voltas as costas ao que julgavas moribundo e revisitas instantes de fim de adolescência.

Se tivesse sido possível aquela noite ser ainda melhor, esta manhã teria sido ainda mais estrangeira.

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Amor dextro.

Há algum tempo comecei a reparar que a vida é feita de muitas coincidências e que isso não pode ser coincidência. Aqui fica uma prova do que não pára de me espantar.

Liguei a televisão e coloquei um disco. Uma imagem de alguém que reconheci como um amigo que não via há milhares de anos deteve-me. Perante mim apresentava-se o anfitrião do “Zecchino D’Oro” ladeado por uma loura tão usada como a 46ª edição do evento, e que nem na mais tenra idade me cativou. Lembrei-me logo dos sapos que uma portuguesa com caracóis serviu numa bandeja de casquinha a todos os outros chorosos concorrentes há séculos.

Neste momento feliz tocavam só para mim os Black Rebel Motorcycle Club o mais do que adequado hino Whatever Happened to My Rock 'N Roll.

Palavras, (ou som original), para quê? Se não me tivesse desviado a tempo ainda tinha dado de caras com o Eládio Clímaco. Cruzes canhoto!

quarta-feira, dezembro 31, 2003

Imaginar o Amor.

Gosto das coisas infinitas que conheço. Gosto de imaginar quantos grãos de areia existem na praia do Carvalhal, de calcular o número de folhas em todas as Oliveiras que vi até agora e de pensar em quantas letras “a” existem em todas as palavras dos livros que não li.

Desejo Amor.

Mais um ano que se prepara para levantar. O de agora já está cansado e usado. Não está velho porque só tem um, mas está gasto de tanto e de tão pouco ter dado.

Para o que vem desejo amor. Muito. Daquele que dizes que já tenho mas que está guardado.

Tantas vezes nos demos a quem devíamos muito, pouco ou nada, que para agora não serve qualquer coisa. Se calhar nem serve de nada.

As doze sultanas aspirantes serão poucas para matar a fome do que desejo.

terça-feira, dezembro 30, 2003

Por Amor de Deus IV.

Sabem aquelas senhoras de leste que mendigam nos semáforos com bebés ao colo?

Estavam hoje duas famílias dessas no jardim do Campo Grande a rir e a conviver no final do dia. Um marido fotografava alegremente cada um dos membros do agregado familiar.

Como cenário de fundo ficou, pelo menos, a minha incredulidade.

Amor desafinado.

Não percebo porque é que às vezes gosto de ouvir música mais alto. Até aquela que costuma levar-me a mão ao botão do volume para levantar mais uns pêlos dos braços. Mesmo essa, de vez em quando, vai para uma altura em que os meus vizinhos não atingem.

Se calhar é para não te ouvir a chamares-me.

Se calhar é para me destoar o coração com batidas estranhas às dele.

”C” de Amor.

“C” de Cassilda.

Gostava:
- De fotografias antigas duma vida que nem ela se lembrava que tinha sido a sua;
- Das netas todas, 4 no total e uma em particular;
- Da lezíria, dos cavalos, dos touros bravos e da criação.

Não Gostava:
- Da maioria das recordações que lhe foram reservadas;
- Do Inverno que trazia as marés vivas e o medo da noite;
- Que as gatas parissem logo ali ao pé da porta de casa.

No fim:
Era uma prima envelhecida pelos desgostos e pelo sol da planície ribatejana. O marido traiu-a com a tuberculose ainda novo. O filho mais velho morreu num acidente de motorizada quando ia para o hospital de Vila Franca visitar a mulher que tinha acabado de dar à luz a filha dos dois.

Restava uma filha que lhe deu as 3 netas que não a órfã do seu filho. Esta dava constantemente com a mãe caída no chão da cozinha desmaiada quando o desgosto era mais forte que ela. A minha mãe diz que morreu de velha - o que quer que seja que isso seja.

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Amor mondado.

Surges-me devagar como o roupão a seguir ao duche. Fecho os olhos e enroscas-te no calor da minha saudade. A música que escolho e a outra indicam-te invariavelmente. A distância a que estamos serve como o tempo de levedura para o pão que vai alimentar as nossas bocas.

Pergunto-me sobre a resistência do que estorva a engrenagem das nossas vidas.

domingo, dezembro 28, 2003

Sobejo de Amor.

Passo propositadamente pelas ruas e sítios que fazem a tua rotina. Tento achar migalhas de ti.

Sinais para seguir a direcção do que sonho e não do que vivo.

Grandes imagens de Amor.

Numa das minhas rotinas, a de ver quem e como veio espreitar este blog, descobri alguém que não poderia ter chegado a sítio melhor. Esse alguém fez uma pesquisa no Google por: “quero ver grandes imagens de sexo”

A segunda visita mais inusitada até hoje foi a de alguém que procurou por “alimentação para pardais de Java”

Por vezes, o medo de não estar à altura das exigências deixa-me cismático. Rezo para que não tenha decepcionado nenhum dos dois visitantes acima referidos.

sábado, dezembro 27, 2003

Amor subordinado.

Dantes podia-se comprar e vender pessoas. A escravatura já foi coisa banal onde os mais privilegiados podiam servir-se dos mais simples. Poderiam ser uma mercadoria boa ou má, de denominação de origem controlada ou caseira, saudável ou problemática.

Às vezes gostava de ter vivido nessa altura com a mulher que me transcende. Eu era um senhor e ela tinha vindo não se sabe bem de onde. Num dia solarengo, lá para os lados de Belém, comprava-a num negócio por mais do que aquilo que tinha. Muito menos que o seu real valor.

A partir daí seria a minha proprietária. Assim que saíssemos daquele tolerado inferno passaria a comandar-me e eu como seu senhorio indicava-lhe o seu novo papel.

A simplicidade de antigamente subordinada ao tema do amor garantido.

”B” de Amor.

“B” de Barata.

Gostava:
- De choco frito (de Vila Real de Santo António e de Setúbal);
- Da Maria do Castelo, filha do procurador e sua namorada de muitos anos;
- Da Renault 4L, que tantas vezes nos galgou do Castelo para a AR.CO onde fomos felizes na mesma turma de Design gráfico.

Não Gostava:
- De copistas;
- De estúpidos (a estupidez humana é a maior multinacional que existe, daí a sua costela radical vir ao de cima);
- Que simpatizassem com ele logo à primeira. Só os eleitos deveriam conhecê-lo e só após um aturado trabalho de conquista o conseguiriam. Se assim não fosse era porque ventos de hipocrisia iriam soprar na sua direcção. Era, portanto, um antipático. O sucesso junto da população feminina bafejava-o devido à sua semelhança física com o Vandame.

No fim:
Foi um grande amigo que o tempo se encarregou de esconder. Daqueles cujas palmadas nas costas nos aqueciam o espírito de verdade. Vemo-nos raramente. No nosso olhar vivem mais palavras e lembranças do que as que trocamos.

sexta-feira, dezembro 26, 2003

Amor cá dentro.

Rapidamente nos esquecemos que tudo começou em duas células que deram no que somos. Sabe-se lá porquê, aparecemos nós vindos do amor. Do verdadeiro que os nossos pais fizeram naquele instante.

De que terão falado enquanto começávamos a germinar? Será que foi tão bom para ela como para ele? Fumaram? Deu-lhes fome? Ficaram com o cheiro de quem ama impunemente?

Cá dentro foi tudo mais simples. Uma solução aquosa embalou-nos para o mal ou para o bem do que fazemos da existência regular.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

O Amor da casa amarela.

Na capa do “Cahiers du Cinema” de Dezembro vem o João César Monteiro. No interior há uma reportagem de 8 páginas intitulada “Génie de João César Monteiro”

Sabe quem sabe muito disto que a obra integral deste cineasta português, lançada este mês em DVD, é importante.

Estou cá desconfiado que não falta muito para a ridícula franja intelectual portuguesa começar a torcer a orelha e constatar que esta já se encontra seca como feno em Agosto.

A esta hora, os que insultaram a Branca de Neve devem estar a besuntar sapos gigantes com vaselina da boa.

Amor au sal.

A tua imagem tenta-me como uma ferida salpicada pela da água do mar que tantas vezes me leva.

terça-feira, dezembro 23, 2003

Amor de luva branca.

As mãos que desejamos parecem-nos sempre demasiado bem desenhadas para as nossas. A junção é tão perfeita que julgamos serem as que procuramos desde da nascença. As que hoje me roubaram a compostura são verdadeiras relíquias de beleza (a sua dona cuida-as melhor que eu da minha alma).

É um bom indicador o que nos nossos pulsos sente as batidas e o fôlego a inflamar.

Às vezes, só de darmos as mãos a quem amamos ficamos mais perto do paraíso.

”A” de Amor.

A partir de hoje vou correr todas as letras do alfabeto para apresentar pessoas que posso dizer que são minhas. A prova que a realidade é mais fascinante que a ficção segue dentro de instantes.

“A” de Álvaro

Gostava:
- Do mar (como todos nós, mas ele com mais legitimidade porque foi marinheiro);
- De receber um perfume como presente em qualquer ocasião;
- De ler jornais nas tardes de Sábado e depois passar pelas brasas (deitava-se de barriga para baixo na cama e punha o jornal no chão, depois era só sobrepor as mãos debaixo do queixo, espreitar et voilà).

Não Gostava:
- De desorganização;
- De emprestar o carro;
- Da quimioterapia que nos últimos tempos o apoquentou.

No fim:
Era e é o meu pai. Partiu em 1995 porque desistiu de ganhar a um cancro que o acompanhou demasiado de perto durante 17 anos.

domingo, dezembro 21, 2003

Amor tão grande, senão maior, do que o primeiro.

Pela primeira vez um poema. Brilhante e que revisito regularmente na voz da Bjork. Se é a vossa primeira vez, já sabem, tentem fazer o melhor que conseguirem.

Chama-se Bachelorette.

I'm a fountain of blood
In the shape of a girl
You're the bird on the brim
Hypnotized by the Whirl

Drink me, make me feel real
Wet your beak in the stream
Game we're playing is life
Love is a two way dream

Leave me now, return tonight
Tide will show you the way
If you forget my name
You will go astray
Like a killer whale
Trapped in a bay
(the ocean miles away)

I'm a path of cinders
Burning under your feet
You're the one who walks me
I'm your one way street

I’m a tree that grows hearts
One for each that you take
you’re the ground I feed on
We’re circle no one can break
Leave me now, return tonight
The tide will show you the way
If you forget my name
You will go astray
Like a killer whale
Trapped in a bay
(the ocean miles away)

I'm a whisper in water
A secret for you to hear
You are the one who grows distant
When I beckon you near

Life is a necklace of fears
Your uncried tears on a string
Our love will untie them, come here
Loving me is the easiest thing


Por Sjòn. 


Ainda não percebi se, no caso do amor, o tamanho importa. Se assim for, quem não se harmonizar e morrer ao lado da primeira paixão está bem arranjado.

Eu sou dos que está muitíssimo bem arranjado, cá para o meu lado tem sido sempre a crescer, cada vez amo mais. Se calhar é da idade, os anos vão saindo e vou aproveitando o espaço livre para guardar amores de toda a espécie, formato e grandeza.

sábado, dezembro 20, 2003

Queda para o Amor.

Desde que te conheço que só quando me distraio é que desço até aqui às nuvens.

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Amanhã há mais Amor.

Para nós não existe futuro. O nosso é só nosso. E o geral - o futuro - não nos pertence. Os outros que fiquem com o outro, com o grande que chega para tantos. Neste ninguém toca. Para cá de nós próprios mandamos nós.

Quem quiser que cuide do outro. Deste sabemos os dois. Se o nosso estiver bem é sinal que os que nos são queridos também estão a tratar do grande.

Quando todos souberem que o este é maior e mais esplendoroso que o do resto é que vai ser. Toda a gente vai querer um parecido. Coitados, não vão perceber que este fomos nós que nos demos e que não há mais nenhum.

Nem parecido nem próximo.